Matança e escassez pressionam ditadura de Assad

Análise: Harvey Morris / IHT

O Estado de S.Paulo

28 Maio 2012 | 03h01

O massacre de Hula está sendo descrito por muitos como um marco no levante sírio. Mas um marco representando o quê? Será que vai finalmente mobilizar o ímpeto necessário para uma ação internacional unificada no sentido de obrigar Damasco a aceitar uma transição política, ou será o marco na verdade o início de uma guerra civil de grandes proporções?

Representantes das Nações Unidas disseram que 108 pessoas, entre elas pelo menos 49 crianças com menos de 10 anos, foram assassinadas no vilarejo do centro da Síria e acusaram o governo de bombardear indiscriminadamente bairros civis.

O governo de Bashar Assad parece ignorar a condenação internacional de suas violações de um cessar-fogo nominal e insistiu durante o fim de semana que "terroristas" eram responsáveis pela mais recente matança. Mas há indícios de que, apesar de soar confiante, o regime tenha um calcanhar de aquiles capaz de abalar a lealdade daqueles que ainda o apoiam: a comida.

Numa reportagem publicada na sexta-feira que citava comerciantes internacionais de grãos, a Reuters disse que a Síria enfrentava dificuldades para satisfazer sua necessidade de importações, tornando mais provável a perspectiva de uma escassez de pão que poderia esgotar o apoio ao regime.

A Síria, que já foi a grande fonte de pão do Império Romano, importa trigo com regularidade há 30 anos. Com a produção doméstica abaixo das metas como resultado de pragas que atacaram as colheitas e dos distúrbios criados pelos 15 meses de conflito interno, o regime enfrenta problemas para encontrar fornecedores e preencher a lacuna.

Os grãos e outros produtos alimentícios não estão sujeitos às sanções internacionais impostas pelos EUA, Europa e outros países - as sanções são voltadas contra o regime, e não o povo.

Mas as sanções financeiras estão afastando os bancos estrangeiros, comerciantes e transportadores estrangeiros dos negócios com Damasco, obrigando o governo a buscar soluções para o abastecimento, garantindo as provisões subsidiadas de pão das quais muitos sírios dependem. Além disso, a Síria precisa comprar milho e cevada para alimentar os animais.

Em janeiro, funcionários sírios se gabavam de contar com reservas de trigo suficientes para dois anos de consumo interno, planejando até trocar parte do seu estoque por petróleo refinado e fosfato para driblar as sanções a tais produtos.

Mas, desde então, a Autoridade Geral para o Processamento e Comércio de Cereais, órgão do governo conhecido como Hoboob, teria oferecido um preço duas vezes maior do que o praticado internacionalmente pelo trigo importado.

O governo disse na semana passada que as sanções tinham custado ao governo US$ 4 bilhões até o momento.

O ministro do petróleo Sufian Allaw responsabilizou as sanções pela escassez que estava obrigando os sírios a enfrentar longas filas para pagar preços inflados pelo gás de cozinha, combustível, açúcar e outros artigos básicos.

Após o massacre de Houla, a pressão pelo endurecimento das sanções será maior. Sejam quais forem as medidas buscadas para persuadir parceiros globais relutantes, como a Rússia, a participar da iniciativa, estas não devem incluir restrições diretas ao comércio de alimentos.

Isso ainda é tratado como tabu pelos regimes de sanções globais com base no princípio de que as populações não devem ser castigadas pelos crimes de seus governantes. No entanto, os governos que pedem o fim do regime de Assad não ficarão incomodados se ele for responsabilizado por falhar em alimentar seu povo.

De acordo com a teoria, a lacuna nos suprimentos seria preenchida pela comunidade internacional. O Programa Mundial de Alimentos da ONU intensificou no mês passado seus esforços de auxílio alimentar na Síria, com o objetivo de atender meio milhão de pessoas.

A ONU concentrou seus esforços nas regiões mais atingidas pelo conflito. Mesmo antes de a violência eclodir na Síria, uma pesquisa de segurança alimentar revelou que 1,4 milhão de pessoas enfrentavam dificuldades para satisfazer suas necessidades diárias, de acordo com o Programa Mundial de Alimentos.

Mas a agência da ONU se queixou de ainda não ter podido captar o dinheiro necessário para financiar seu programa de auxílio alimentar.

Assim, persiste o dilema de exaurir o apoio a Assad sem com isto exaurir o povo sírio. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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