'Mataremos todos: homens, mulheres e crianças'

Radicais do Estado Islâmico conseguiram entrar em vilarejo após yazidis resistirem por 4 horas, até munição acabar

Lourival Sant’Anna, enviado especial / Zakho, Iraque, O Estado de S. Paulo

19 de agosto de 2014 | 16h14

ZAKHO, IRAQUE - Eram 2 horas do dia 3 de agosto quando os moradores de Siba Sheikh Khider, vilarejo de 10 mil habitantes ao pé da cadeia de montanhas do noroeste do Curdistão iraquiano, ouviram disparos. Treze caminhonetes levando cerca de 50 homens armados de metralhadoras, fuzis e morteiros entraram no vilarejo, reduto da seita curda yazidi, uma mescla de cristianismo, islamismo e zoroastranismo particularmente odiada pelos jihadistas do Estado Islâmico.

O atacadista de verduras Khalil Ali, de 34 anos, como outros moradores civis do vilarejo, tinha se preparado para esse momento, guardando um fuzil AK-47 em casa. “Havia 30 peshmergas protegendo a área residencial”, lembra Khalil, referindo-se aos soldados curdos. Os civis eram 30, e lutaram ao lado dos peshmergas, que repetiam o tempo todo: “Vão chegar reforços”. Mas nunca chegaram. Já os jihadistas continuaram chegando.

“Resistimos durante 4 horas, até a munição acabar”, conta Khalil, que acredita terem matado entre 50 e 60 islâmicos. “Os peshmergas nos abandonaram.” Os jihadistas tomaram a delegacia de polícia, que estava vazia. Alguns moradores não conseguiram fugir. Os combatentes islâmicos atiraram em todos os carros dos civis que ficaram para trás, diz Khalil. “Mataram ao menos 10 civis e capturaram 15 pessoas na entrada do bairro.” Alguns moradores ficaram presos em suas casas.

Eles fugiram para a montanha mais próxima, Skeiniya. Quando estavam em uma fonte de água, ao meio-dia, dois jihadistas, um de barba e outro sem, vieram dando tiros para o alto. O de barba, que tinha sotaque e feição de saudita, assim como outros jihadistas que Khalil viu na montanha, disse: “Irmãos, vocês têm até amanhã às 10 horas para trazerem suas mulheres e se renderem, e ficarão a salvo. Se não vierem, vamos matar todos: homens, mulheres, crianças. Não pouparemos ninguém”.

Mas Khalil e outros na montanha receberam telefonemas de pessoas dizendo para não confiar nos homens do Estado Islâmico: “Eles não têm religião e nada é seguro com eles”. Aguentaram dois dias na montanha, sem comida nem água potável. Desciam com medo para pegar água na fonte. Conseguiram fugir para a montanha Sinjar e de lá para a Kersi. “Andamos a partir do nascer do sol por 6 ou 7 horas com crianças, mulheres, sem água nem comida. Alguns morreram no caminho. Os velhos não conseguiam andar”, recorda o comerciante.

Chegaram à montanha Kersi e ficaram lá uma noite, até que receberam a notícia de que guerrilheiros curdos do PKK, grupo originário da Turquia, mas que agora mantém bases no Iraque, tinha chegado para resgatá-los. “Se não fosse o PKK, milhares de pessoas teriam morrido de sede, de fome, de medo ou dos morteiros”, afirma Khalil. “O PKK protegeu a estrada e saímos da montanha. Caminhamos até o meio-dia até a fronteira síria, no vilarejo de Duggur.” O PKK os levou para o lado sírio em carros e caminhões.

“Os sírios fizeram o que puderam”, testemunha Khalil. “Deram-nos biscoitos, remédios, levaram os doentes em ambulâncias. Foi uma grande ajuda. Disseram: ‘Vocês são irmãos, não tenham medo enquanto estiverem aqui’”. O PKK deu a opção de ficarem na Síria ou voltarem para o Iraque nos veículos deles. Decidiram vir para Zakho, cidade de 250 mil habitantes, próxima da fronteira com a Síria e a Turquia.

Khalil, a mulher e cinco filhos, não conseguiram ainda uma tenda, no acampamento com cerca de 5 mil yazidis na periferia de Zakho. Estão dormindo no relento.

As condições do acampamento são muito difíceis. Não há banheiros. Eles recebem água e comida doadas por empresários locais, organizações não-governamentais e agências da ONU. Enfrentam o calor do verão iraquiano, que no início da tarde de domingo atingia 46,5 graus centígrados, na melhor das hipóteses sob tendas de lona.

Mesmo assim, o acampamento, como também as escolas e prédios em construção que abrigam outros milhares de yazidis, são um sonho para muitos que ficaram nas montanhas, sem água nem comida e à mercê dos jihadistas.

“Até agora não pudemos trazer minha mãe, que ficou com meu irmão e outras 15 pessoas”, diz Khalil, cuja história é muito parecida com a de outros yazidis ouvidos pelo repórter ao longo de um dia inteiro em Zakho. Ela tem osteoporose e não consegue atravessar a montanha caminhando. Outros têm diabetes.

O peshmerga aposentado Mardan Hadji, de 38 anos, que enfrentou os jihadistas até acabar a munição, também deixou sua mãe e seu tio na montanha. Membro do Partido Democrático do Curdistão, ele está em contato com os fugitivos, e disse que cinco pessoas haviam morrido até o início da tarde do domingo.

“A ajuda despejada pelos aviões cobre metade das necessidades das crianças apenas”, disse Hadji. “Muitos galões de água explodem quando caem.”

O Estado falou pelo telefone com Amil Ali Patcho, que está na montanha. “Todo mundo quer ir para aí, mas não podemos”, disse ele. “Estamos acompanhados de pessoas velhas. Somos cerca de 50. Os aviões (americanos) estão voando perto de nós. Ninguém vem até nós, mas posso ver daqui que a cada um ou dois dias uma patrulha (do Estado Islâmico) vai até nossa vila.”

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