Mate e deixe morrer

James Bond e sua ‘licença para matar’ defenderam a justiça acima da lei, mas eles são ficção; as violações e os inocentes mortos pelos EUA são reais

NAOMI WOLF / PROJECT SYNDICATE,

03 de novembro de 2012 | 22h51

Por uma estranha, mas bastante apropriada coincidência, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e seu adversário republicano, Mitt Romney, realizaram seu último debate - concentrado na política externa - no momento em que o novo filme de James Bond, 007, Operação Skyfall, estreava em Londres. Embora 007, que este ano fez 50 anos, seja uma marca global de origem britânica, sua influência na mentalidade política americana - e vice-versa, a influência desta em Bond - é óbvia.

De fato, a mais recente produção é uma parceria anglo-americana, e o violento herói especialista em operações especiais, que Bond passou a encarnar, reflete os pressupostos americanos sobre política externa e o governo da lei.

O debate presidencial limitou-se a reforçar a trama dominante em tempo real: o assassinato (até mesmo de cidadãos americanos) exclusivamente por ordem do presidente, outrora considerado um crime de guerra, tornou-se um motivo de aplauso.

Isso é tão válido no caso de Romney, como foi para Obama. Romney afirmou que sua política externa é "muito clara". Ela consiste, como explicou, em "perseguir os caras maus, garantir que estamos fazendo o máximo para detê-los, matá-los, e tirá-los de cena". Em outras palavras, ele "os mataria" onde quer que fossem encontrados, não só no campo de batalha, mas também em outros países soberanos, como o Paquistão, sem que lhe fosse feita nenhuma acusação ou que ele fosse levado a um processo.

De sua parte, Obama ganhou pontos ao humilhar Romney por este ter se oposto à invasão ilegal que matou Osama bin Laden. Posteriormente, ele defendeu a estratégia de ataques com drones que usou para "matar os caras maus" sem ser passível de acusação ou processo. E Romney aplaudiu.

Vítimas. Nenhum dos dois candidatos mencionou o fato de que, de acordo com algumas estimativas, os ataques de drones mataram muito mais civis do que "suspeitos de terrorismo". Segundo o estudo mais confiável, as mortes de civis por esses ataques, entre junho de 2004 e meados de setembro de 2012, foram estimadas em 881, incluindo 176 crianças.

Antes do debate, a chefe dos correspondentes da CNN na Casa Branca, Jessica Yellin, perguntou a Obama a respeito de sua estratégia com os drones. A resposta do presidente foi vaga - os ataques "precisam ser autorizados por nossas leis" - e não fez nenhuma menção a processos para os acusados de crimes de terrorismo, a tratados internacionais sobre crimes de guerra, ou a qualquer outra violação da legalidade. Na realidade, a legislação americana não pode "autorizar" ataques com drones em países com os quais os EUA não estão em guerra.

Nem os americanos podem se eximir. Obama afirmou que os cidadãos americanos "estão sujeitos à proteção da constituição e do processo devido". Entretanto, Anwar al-Awlaki era um cidadão americano e Obama ordenou que fosse morto exatamente desta maneira. Assim como o filho de 16 anos de al-Awlaki, morto deliberadamente por um ataque de drone duas semanas mais tarde.

Eu assisti ao debate cercado por outros adolescentes americanos. Eles cresceram num ambiente pós-11 de Setembro, saturado pelas afirmações de que os presidentes americanos podem considerar qualquer um como um "cara mau" e ordenar que seja sumariamente assassinado. "Mas isso é ilegal", eu fiquei falando enquanto os candidatos falavam de "matar os caras maus", e não de prendê-los ou extraditá-los para responderem pelos crimes dos quais eram acusados.

Nenhum dos adolescentes, com um bom nível de escolaridade, acreditou em mim. Como cresceram numa época em que presidentes e candidatos à presidência discutem a emulação de um tipo de comportamento à la Bond praticamente sem restrições, eles acharam que eu estava inventando. "É claro que é legal", afirmaram. Ambos os candidatos haviam acabado de dizer ao mundo inteiro que pretendiam continuar praticando o que, segundo as leis americanas e internacionais, são atos criminosos. O moderador do debate, Bob Schieffer, que devia saber muito bem do que estavam falando, não disse nada.

Como pano de fundo deste fracasso legal e moral está todo o estardalhaço a respeito da incursão que culminou com a morte de Bin Laden, na qual uma equipe de operações especiais da Marinha americana penetrou num complexo num bairro residencial no Paquistão e assassinou várias pessoas. O livro No Easy Day, escrito por um integrante da equipe, tornou-se um best-seller. Do mesmo modo, este mês, a revista Vanity Fair publicou uma crônica de bastidores que mostra, num tom reverente, os preparativos da incursão com Obama e sua equipe.

O que impressiona no livro No Easy Day e no artigo da Vanity Fair é que a justificativa do processo devido se reflete em quase todos os parágrafos. As fontes citadas pela Vanity Fair confirmam que as informações sobre as quais a equipe tomou a decisão de invadir eram nebulosas e incompletas (ou seja, o alvo, a julgar pelo comprimento de sua sombra, era "alto e magro" como Bin Laden, mas sua identidade não era absolutamente certa). Também ficou claro que prender o homem não teria sido mais difícil - e talvez até mais fácil - do que matá-lo e pôr em risco a segurança da família.

Vingança. Assim como os SEAL da Marinha e outras equipes de operações especiais que atualmente perambulam em sigilo pelo planeta, Bond é um matador que age por vingança pessoal, como em Quantum of Solace; por razões geopolíticas, como em Um novo dia para morrer, ou simplesmente porque alguém está no seu caminho. Seus chefes também identificam os alvos à distância e ordenam sua destruição, sem revelar a menor consciência de alguma ambiguidade em relação a quem é um "cara mau" ou admitir a possibilidade de as informações estarem erradas ou de se tratar de erro de identidade. Enquanto isso, suas vítimas inocentes são invisíveis.

Toda uma fabulosa tecnologia militar faz parte do espetáculo e se torna sua própria justificativa - um personagem na trama do herói.

Durante 50 anos, James Bond e sua "licença para matar" defenderam a justiça imperial além dos limites da lei. Mas ele é um personagem imaginário, assim como suas vítimas.

A violação da lei nacional e internacional dos EUA - e os corpos dos inocentes eliminados pelos drones ou por agentes especiais - são absolutamente reais. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É MILITANTE POLÍTICA E CRÍTICA SOCIAL CUJO LIVRO MAIS RECENTE É ‘GIVE ME LIBERTY: A HANDBOOK FOR AMERICAN REVOLUTIONARIES’

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