Matei Bin Laden e aprovo esta mensagem

Falar sobre o legado de um cadáver que jaz no fundo do Mar Arábico tem sido claramente o tema de campanha de Barack Obama há bastante tempo, e por que não?

É COLUNISTA DO ELECTION 2012 CHANNEL DA FOREIGN POLICY, PESQUISADOR DA CENTURY FOUNDATION , MICHAEL A., COHEN, FOREIGN POLICY, É COLUNISTA DO ELECTION 2012 CHANNEL DA FOREIGN POLICY, PESQUISADOR DA CENTURY FOUNDATION , MICHAEL A., COHEN, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

06 Maio 2012 | 03h05

Se existe um argumento com que a campanha presidencial americana de 2012 nos brindou é o de uma indignação fajuta. Quer se trate dos democratas revidando furiosamente contra o presidente do Comitê Nacional Republicano, Reince Piebus, que comparou a "guerra às mulheres" a uma "guerra contra gafanhotos", quer se trate da multimilionária Ann Romney - que defende que as mães devem ficar em casa depois dos comentários ofensivos de Hilary Rosen -, os dois lados, de Romney e Obama, ficaram praticamente histéricos ao ver pela primeira vez correr sangue político nesta altura da campanha.

A mais recente indignação desta semana foi pelo fato de o presidente Barack Obama tomar para si o crédito político de matar Osama bin Laden, e depois acusar seu adversário, Mitt Romney, de não ser suficientemente coerente quanto à eliminação do terrorista mais procurado dos Estados Unidos. É certo que não há nada de realmente novo no fato de Obama mencionar esse episódio. Seu discurso sobre o Estado da Nação poderia se intitular "Sou Barack Obama e matei Osama bin Laden". A parte mais importante do documentário de 17 minutos realizado este ano pela campanha de Obama é a descrição da invasão, que já se tornou lendária.

Agora, a crítica mais recente está num anúncio de 90 segundos (narrado por Bill Clinton), feito para coincidir com o aniversário, no dia 1.º, da morte de bin Laden, que não só elogia a decisão tomada pelo presidente, como se pergunta se Romney teria optado pelo mesmo caminho difícil.

Falar do legado de um cadáver que jaz no fundo do Mar Arábico tem sido claramente o tema da campanha de Obama há bastante tempo - e por que não? Obama já foi suficientemente criticado durante a campanha de 2008 (até mesmo por seu atual vice-presidente e pela secretária de Estado) por afirmar que sua prioridade seria matar Bin Laden. Como presidente, seu propósito não mudou. Durante o mesmo ciclo presidencial, Romney disse que não valeria a pena perseguir "a qualquer custo" o líder terrorista.

Pode-se discutir a respeito dos detalhes, ou se alguém acredita que, se fosse eleito presidente, Romney seria realmente tão reticente em tentar eliminar Bin Laden. Mas, por favor, campanhas políticas não são sacos de feijão - e um presidente que tenha uma importante realização militar usará este crédito. Se George W. Bush tivesse eliminado Bin Laden, teria feito o mesmo, e os democrata gritariam falsamente indignados. Na realidade, eles só fizeram isso quando Bush apareceu enrolado na bandeira do 11 de Setembro, durante as eleições de 2004.

Quando se tem uma vantagem política é preciso usá-la e, neste aspecto, Obama não é diferente de qualquer outro homem que tenha ocupado o Salão Oval. Mas o que distingue a tentativa de Obama de transformar a incursão na casa de Bin Laden num prêmio político é como essa estratégia acabou se tornando extraordinariamente eficiente. Num momento de estagnação econômica e de elevado desemprego, as realizações no campo da política externa supostamente não têm um peso tão relevante nas eleições gerais. Na realidade, toda pesquisa de opinião importante sugere que os eleitores não estão tão preocupados com política externa, em geral, e com terrorismo em particular. Mas, ao mesmo tempo, eles dão a Obama uma nota alta por seu desempenho em política externa - e seus esforços no combate ao terrorismo são em grande parte o motivo disso.

Mensagem. A esse respeito, a morte de Bin Laden é mais do que apenas uma mensagem fundamental para a campanha de Obama; ela constitui de fato o cerne do seu processo de reeleição. Aqui está um democrata que não só falou a mais pura verdade a respeito da força militar, como também fez todo o esforço devido (ponto reforçado pela mensagem de Peter Bergen sobre a agressividade militar de Obama e a filosofia do "guerreiro", na edição do domingo passado do New York Times). Na realidade, a incursão que causou a morte de Bin Laden - e seu uso político nestas eleições - tem muito mais a ver com a dificuldade e a liderança do que com política externa ou mesmo terrorismo. O sucesso da incursão, em primeiro lugar, reforça as credenciais de liderança de Obama.

De fato, a estratégia é quase idêntica ao benefício político que Bush tentou acrescentar ao seu esforço para reeleger-se em 2004, quando sua campanha procurou de todo modo retratá-lo como o protetor-chefe - e a seu adversário como um sujeito não corajoso ou experiente o bastante para cuidar da segurança dos EUA. Como aconteceu com Bush, o benefício político para Obama está menos no ato em si e mais na imagem que cria ao redor do homem - noção que os democratas tiveram a felicidade de reforçar com reiteradas afirmações sobre como foi difícil e corajosa a decisão de Obama de ordenar a incursão. Na realidade, esse foi um argumento que Romney levantou sem a menor intenção ao observar casualmente esta semana que "até Jimmy Carter" teria ordenado a missão.

Entretanto, como James Fallows, ex- membro da equipe de Carter, nos lembra, seu antigo chefe ordenou uma ardilosa operação militar. Fracassou miseravelmente e quase certamente comprometeu suas chances de reeleger-se, fato que talvez não tenha passado despercebido ao atual comandante-chefe. A referência a Carter nos lembra de que estas decisões não deixam de ter seu custo político.

Além desses benefícios políticos, a incursão na casa de Bin Laden é ainda mais importante para o escudo de defesa que ela ergue ao redor do presidente. É a principal defesa contra toda e qualquer crítica dos republicanos à dureza de Obama. Aliás, em dezembro, quando os republicanos estavam intensificando suas críticas contra as medidas de combate ao terrorismo de Obama, ele jogou a carta de Bin Laden: "Perguntem a Osama bin Laden e aos 22 de seus 30 líderes da Al-Qaeda que foram eliminados se eu sou mais favorável ao apaziguamento". Foi um espetáculo espalhafatoso para um presidente, mas só podemos imaginar a frustração dos republicanos tão acostumados a atacar os liberais por vários pecados de moderação ao se verem derrotados politicamente e até cair na isca política de um democrata rápido no gatilho.

O resultado é que, embora Obama pudesse ser criticado pelos republicanos por politizar o aniversário da morte de Bin Laden, esta é uma acusação que agrada particularmente ao partido de Obama. Todos os dias em que a imprensa do país fala de Bin Laden é um dia de vitória para a Casa Branca, o que quer que se fale. Tudo isso está muito distante do último presidente que tinha uma grande vitória militar para exibir. Na primavera e verão de 1991, coberto pelos esplendores da Guerra do Golfo, os índices de aprovação de George H. Bush cresceram vertiginosamente (para perto de 90%).

Medo. Os candidatos democratas potenciais, temerosos do apoio público aparentemente à prova de balas de Bush e preocupados com sua votação no Senado contra a guerra, tiveram muito medo de enfrentar Bush. O lado democrata na época era um conjunto heterogêneo de concorrentes e de políticos pouco conhecidos. Mas, um ano mais tarde, Bush estava em meio de uma crise política, defrontando-se com um desafio em seu flanco direito e sob ataque político de Bill Clinton e Ross Perot. No final, a Guerra do Golfo raramente foi mencionada durante as eleições gerais de 1992 e quando foi mencionada, a questão dizia menos respeito ao sucesso de Bush ao expulsar Saddam Hussein do Kuwait, e mais ao fato de ele ter deixado uma tarefa inacabada ou dedicado muita atenção aos problemas externos enquanto a economia tinha um desempenho péssimo.

O legado de Bush pai como presidente bem-sucedido em política externa tem sido consideravelmente menosprezado no século 20. Na realidade, Obama, a certa altura da campanha de 2008, disse que sua presidência representaria "uma volta à política externa tradicional, bipartidária, realista" de George H. Bush ) e de Ronald Reagan e John Kennedy).

Evidentemente, o desempenho de Bush não foi de grande ajuda na campanha e ele foi derrotado nas eleições - parte do legado de Bush que Obama não gostaria absolutamente de repetir. No fim, a vitória na Guerra do Golfo não mostrou Bush como um líder mais forte, mais enérgico, quando teve de conduzir a economia interna. Mas com a maneira ousada, agressiva com a qual Obama se referiu ao aniversário da morte de bin Laden, será bem mais improvável que ele caia na mesma armadilha política do seu infeliz predecessor. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.