Maus acordos

Há a necessidade de novos pactos para a partilha do poder

Thomas L. Friedman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2011 | 00h00

Revelou-se afinal que Osama bin Laden estava morando num complexo construído especialmente para ele no Paquistão. Pergunto-me onde ele teria encontrado dinheiro para comprá-la.

Será que ele empregou os benefícios de seu plano saudita de aposentadoria? Teria Osama recorrido a uma hipoteca subprime paquistanesa? Não. Suspeito que descobriremos que o dinheiro teve a mesma origem que a maior parte dos recursos da Al-Qaeda: alguma combinação de doações sauditas particulares gastas sob o olhar vigilante do Exército paquistanês.

Que motivos temos para nos importar? Ora, este é o coração do problema. Foi ao mesmo tempo justo e estrategicamente vital que assassinássemos Bin Laden, o mentor dos ataques de 11 de setembro de 2001. Eu gostaria apenas que fosse igualmente fácil eliminar os dois maus acordos que de fato possibilitaram aquele ataque, fornecendo a ele os recursos financeiros necessários, seus planejadores e os soldados que o executaram.

Estamos falando dos acordos que definem a distribuição de poder na Arábia Saudita e no Paquistão, que continuam a funcionar sem nenhuma interferência.

O acordo que define a partilha do poder na Arábia Saudita consiste numa antiga parceria entre a tribo Al-Saud e a seita religiosa wahabi.

A tribo Al-Saud fica no poder e tem com isto o direito de viver como quiser atrás dos muros dos seus palácios e, em troca, os seguidores da seita wahabi controlam a religião no país, incluindo-se aí as mesquitas e o sistema educacional.

Os wahabitas abençoam o regime saudita com a legitimidade na ausência de eleições, e o regime os abençoa com dinheiro e a autonomia na administração dos assuntos religiosos. O único lado negativo está no fato de este sistema garantir um suprimento constante de "sujeitos ociosos" - jovens sauditas totalmente incapacitados para o mercado de trabalho que receberam apenas educação religiosa - que são, então, recrutados para se tornarem sequestradores como os que participaram do 11 de Setembro e também homens-bomba no Iraque.

Ninguém explica isso melhor do que a autora saudita Mai Yamani, que publicou o livro Cradle of Islam ("O Berço do Islã", em tradução livre) e é filha do ex-ministro saudita do petróleo.

"Apesar dos dez anos de guerra do Ocidente contra o terror e da aliança mais antiga da Arábia Saudita com os EUA, o establishment religioso wahabi do reino continua a financiar ideologias islâmicas extremistas em todo o mundo", escreveu ela esta semana no Daily Star, de Beirute, Líbano.

"Nascido, criado e educado na Arábia Saudita, Bin Laden é um produto desta ideologia que a tudo permeia", acrescentou ela. "Ele não era um inovador religioso, mas um produto do wahabismo, sendo posteriormente exportado pelo regime wahabi como um jihadista. Durante a década de 80, a Arábia Saudita gastou cerca de US$ 75 bilhões na propagação do wahabismo, financiando escolas, mesquitas e instituições de caridade em todo o mundo islâmico, do Paquistão ao Afeganistão, passando por Iêmen, Argélia e muito além.... Não surpreende que a criação de um movimento político islâmico transnacional, incentivado por milhares de sites jihadistas na internet, tenha agora se voltado contra seu reino de origem. Os sequestradores envolvidos no 11/9 também eram exportações ideológicas sauditas e wahabitas... O exército de potenciais terroristas na Arábia Saudita continua intacto, pois a fábrica wahabi de ideias fanáticas continua em atividade. Assim, a verdadeira batalha não era contra Bin Laden, e sim contra esta fábrica ideológica sustentada pelo Estado saudita."

O mesmo pode ser dito em relação ao Paquistão. O acordo que define a partilha do poder no país é estabelecido pelo Exército paquistanês e diz mais ou menos o seguinte: "Deixaremos que os civis finjam governar, enquanto nós tomamos todas as decisões importantes; consumiremos quase 25% do orçamento do país e justificaremos isso como necessário para que o Paquistão possa enfrentar seu verdadeiro desafio de segurança: a Índia e a sua ocupação da Caxemira". A busca por Bin Laden tornou-se uma atividade paralela para o Exército paquistanês, permitindo que este recorresse a ofertas de ajuda cada vez maiores feitas pelos EUA.

Como observou Lawrence Wright, especialista em Al-Qaeda, em matéria publicada na New Yorker esta semana: o Exército paquistanês e os serviços de espionagem do país "estavam envolvidos no ramo de "procurar por Bin Laden" e, se o encontrassem, seriam obrigados a mudar de ramo".

Wright acrescentou que, desde o 11/9, "os EUA deram US$ 11 bilhões ao Paquistão, principalmente sob a forma de auxílio militar, e boa parte desta soma foi indevidamente usada na compra de armas para defender o país da Índia". (No Afeganistão, o presidente Hamid Karzai joga o mesmo jogo. Ele está no ramo da luta pela estabilidade no Afeganistão. E, enquanto os EUA continuarem a lhe enviar dinheiro, ele seguirá nessa luta).

Estratégia. O que estes dois países precisam é de uma terapia de choque. Para o Paquistão, isso significaria fazer com que os Estados Unidos convertam a maior parte do auxílio oferecido em investimentos nos programas elementares de educação, ao mesmo tempo reduzindo a presença militar americana no Afeganistão.

Juntas, tais medidas transmitiriam a mensagem de que os Estados Unidos estão prontos para ajudar o Paquistão a combater seus verdadeiros inimigos (que são também os dos EUA) - a ignorância, o analfabetismo, as elites corruptas e o obscurantismo religioso -, mas que não temos interesse em ser enrolados por baboseiras como a alegação de que o Paquistão é ameaçado pela Índia e por isso precisaria de "profundidade estratégica" no Afeganistão e de aliados entre o Taleban.

O mesmo vale para a Arábia Saudita. Estamos envolvidos num ménage à trois com os Al-Sauds e os wahabitas. Proporcionamos segurança à família Al-Saud, e ela nos fornece petróleo.

Os wahabitas proporcionam legitimidade aos Al-Sauds e estes lhes oferecem dinheiro (o dos EUA).

O acordo funciona muito bem para os Al-Sauds, mas o resultado é ruim para os Estados Unidos. A única maneira de romper este ciclo é uma nova política energética americana, algo que nenhum dos partidos está propondo.

Assim, eis minha conclusão: sem dúvida estamos mais seguros com a morte de Bin Laden, mas ninguém - nenhum dos muitos muçulmanos moderados na Arábia Saudita e no Paquistão, que merecem um futuro melhor, por exemplo - estará a salvo sem que haja novos acordos para a partilha do poder em Islamabad e Riad. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA E ESCRITOR

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