HO / PRU / AFP
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May ainda respira

Primeira-ministra conseguiu que deputados lhe dessem outra chance de voltar a Bruxelas para negociar

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2019 | 05h00

A primeira-ministra britânica, Theresa May, não admite a derrota. Incansável, confusa, frágil, ela ainda queria provar, na terça-feira, que “a partida que ela joga contra a União Europeia ainda não está encerrada” e “um pouco de esperança continua a reluzir”.

Ela conseguiu que a Câmara dos Comuns lhe permitisse retornar mais uma vez a Bruxelas para renegociar uma parte do acordo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia e sobre o futuro status da Irlanda do Norte, assim que o Brexit fosse pronunciado. 

Embora até agora May tenha perdido suas batalhas contra os deputados britânicos, inesperadamente, desta vez, ela conseguiu o que estava pedindo em vão. Ela irá a Bruxelas para esta nova “última rodada” e continuará a lutar pelo futuro status da Irlanda do Norte, sua fronteira, no caso do Brexit. 

Assim, ela “canta vitória” com ênfase: a Câmara dos Comuns a aprovou pela primeira vez. Mas não nos iludamos. Os europeus, esgotados por esta interminável negociação, já comunicaram que não se trata de alterar a parte do acordo sobre a fronteira da Irlanda do Norte, exceto se forem apresentadas propostas inéditas. No entanto, não há nenhuma. O presidente francês, Emmanuel Macron, foi mais esperto: “Não é negociável”, disse.

O Reino Unido está à procura de apoios, de amigos entre os 27 países-membros da União Europeia. Ele busca romper o cerco. Apoia-se sobre todas as alavancas para quebrar a unidade dos 27 Estados europeus.

Lembre-se que o ministro das Relações Exteriores da Polônia, Jacek Czaputowicz, disse que era a favor de uma solução menos brutal. “Esperamos que uma solução seja encontrada. Devemos estender a mão ao país (Reino Unido), que sempre serviu como modelo e grande irmão da Polônia na UE”. 

Mas a Polônia é um caso singular. De nenhuma forma contestaria Londres. “Na Europa Central e na Escandinávia, muitos gostariam de ter mais flexibilidade por parte dos europeus”, declarou o chanceler polonês.

Londres também disse que seu interesse no mundo exterior continua forte. Serão contratadas, até 2020, mil pessoas em embaixadas, incluindo 330 diplomatas (100 apenas na Europa). Em países pequenos, os números dobrarão.

Poderá esta vasta ofensiva voltada aos países europeus compensar? Como a Rússia é a potência que preocupa as capitais da Europa Oriental, Londres multiplica sua atenção aos suecos, poloneses e países bálticos. Nesse espaço sensível, eles aumentam sua vigilância militar.

Alguns europeus vão longe a ponto de lamentar o eventual afastamento do Reino Unido. A ilha de Malta dá a entender que, depois do Brexit, será o Estado europeu mais próximo do Reino Unido. Esta é uma boa notícia para Londres, mas afinal Malta, por mais meritória que seja, e dotada de um passado histórico de prestígio, não chega a ser um peso-pesado da União Europeia.

Estranhamente, o Reino Unido, que manteve anteriormente com a França relacionamentos às vezes execráveis (Guerra dos Cem Anos, a morte de Joana d’Arc, a rivalidade colonial e marítima) e, às vezes, calorosa (as duas últimas guerras mundiais), hoje parece querer se aproximar de Paris. 

Na capital francesa, dizemos: “Sim, mas, infelizmente, devemos manter distância. Devemos ter cuidado para não encorajar outras saídas, sem enfraquecer o Reino Unido, que deve continuar sendo um parceiro inevitável”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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