EFE/ Neil Hall
EFE/ Neil Hall

May deixa liderança conservadora, mas seguirá como premiê britânica

Política continuará no comando do país até que os Tories escolham em julho quem a sucederá, mas não será mais responsável por coordenar questões relacionadas ao Brexit; mais de 10 nomes estão na disputa, cujo favorito é o ex-chanceler Boris Johnson

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2019 | 10h30

LONDRES - Theresa May deixa nesta sexta-feira, 7, a liderança do Partido Conservador britânico e, embora continue como primeira-ministra até a designação de um sucessor em julho, abandona também a coordenação do Brexit.

"Ouvi a primeira-ministra falar apaixonadamente sobre alguns temas de política interna que a preocupam. Ela continuará concentrada em trabalhar pelo povo britânico, mas em relação com o Brexit disse que já não corresponde a ele levar o processo adiante, e sim ao sucessor", afirmou o porta-voz de May.

Após o referendo de 2016 em que 52% dos britânicos votaram a favor do Brexit, o Reino Unido deveria ter abandonado a União Europeia (UE) no dia 29 de março. Mas a incapacidade de May de obter a aprovação do Parlamento britânico ao acordo que ela negociou arduamente durante dois anos com Bruxelas a obrigou a solicitar dois adiamentos, o segundo deles até 31 de outubro.

Cada vez mais pressionada pelos eurocéticos dentro de seu partido, que consideram que a premiê fez concessões inaceitáveis à UE, May anunciou há duas semanas que renunciaria como líder dos Tories em 7 de junho (leia mais abaixo sobre a escolha do novo líder conservador e premiê britânico), após a visita de Estado ao Reino Unido do presidente americano Donald Trump.

Ao comunicar sua decisão de deixar o poder, May disse que lamentou profundamente não ter conseguido materializar o Brexit. A saída de Theresa May, no entanto, não acaba com os obstáculos para um Brexit que até agora se revelou impossível: a UE se recusa a renegociar o acordo e o Parlamento britânico já expressou sua oposição ao texto, assim como a um Brexit sem acordo.

Para os analistas o único modo de superar o bloqueio em um Parlamento no qual o Partido Conservador não tem maioria absoluta é convocar eleições gerais, mas os Tories não querem nem ouvir falar desta possibilidade após três desastrosos resultados eleitorais em um mês.

Derrotas dos conservadores

O revés mais recente dos conservadores aconteceu na madrugada desta sexta-feira, com o resultado de uma votação em Peterborough, cidade inglesa que compareceu às urnas para substituir uma deputada trabalhista destituída por mentir à Justiça após uma infração de trânsito.

Em uma localidade onde tradicionalmente conservadores e trabalhistas se alternam no poder, os últimos conseguiram manter a cadeira no Parlamento, mas com uma vantagem muito pequena para o eurofóbico Partido do Brexit, fundado há alguns meses pelo populista Nigel Farage, que aspira acabar com o sistema bipartidário e deslocou os Tories para uma inquietante posição.

O analista de pesquisas John Curtice afirmou à BBC que o resultado é a prova de que o país entrou em um "mundo político diferente". E que o Partido do Brexit é uma "força significativamente perturbadora" em qualquer disputa eleitoral após sua grande vitória nas eleições europeias.

"Somos um partido que tem oito semanas de vida e avançamos com força. Acredito que o que começará a acontecer é que os conservadores que desejam sair (da UE) vão votar taticamente no Partido do Brexit, afirmou Farage.

Castigados por sua incapacidade de concretizar o Brexit, os conservadores já perderam 1.330 vereadores e 50 governos municipais nas eleições locais de maio. Poucas semanas depois, o partido ficou em uma humilhante quinta posição, com apenas 9% dos votos, nas eleições europeias.

O novo revés acrescenta ainda mais melancolia à saída de May, que deixa de um partido dividido sobre a complexa questão do Brexit, a decisão política mais importante na história recente do país.

O processo de sucessão

Na segunda-feira, começará o processo para eleger o novo líder dos Tory e chefe do governo britânico, para o qual apareceram mais de dez deputados conservadores, entre eles o ex-ministro das Relações Exteriores Boris Johnson; o atual detentor da pasta, Jeremy Hunt, e o ministro do Meio Ambiente, Michael Gove.

A expectativa é que a ainda primeira-ministra remeta a carta com sua renúncia aos presidentes interinos do chamado Comitê 1922 - que reúne os deputados conservadores sem ministério -, Charles Walker e Cheryl Gillan, e não está prevista nenhuma declaração.

Os aspirantes ao cargo de Theresa May deverão apresentar suas candidaturas a partir de segunda-feira, antes que haja uma série de votações - dias 13, 18, 19 e 20 - entre os deputados conservadores a fim de ir eliminando candidatos até que fiquem apenas dois. Esses últimos serão submetidos ao voto ao filiados do Partido Conservador - cerca de 120 mil - e o vencedor deverá ser anunciado em julho. 

Entre os candidatos existem todas as estratégias possíveis a respeito de um Brexit sem acordo: dois são completamente favoráveis, três firmemente contrários - um deles defende inclusive um segundo referendo - e os outros seis o contemplam com diferentes níveis de aceitação ou reticências. / AFP e EFE

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