REUTERS/Toby Melville
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May recua em plano de governo por sua sobrevivência

Conversas com legenda da Irlanda do Norte se mostraram mais difíceis que o esperado e premiê precisa de apoio do próprio partido após perder maioria em eleição geral

Stephen Castle / NYT, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2017 | 05h00

Theresa May está lutando por sua vida política. Ela não só foi recriminada por muitos do Partido Conservador por uma campanha eleitoral desastrosa, como também foi amplamente responsabilizada por ter manejado mal a situação depois de um incêndio num prédio alto em Londres na semana que causou muitas mortes.

As conversas com os 10 parlamentares do Partido Unionista Democrático (PUD) da Irlanda do Norte se mostraram mais difíceis que o esperado. Ela precisa de seu apoio depois que seu Partido Conservador perdeu sua maioria parlamentar na eleição geral de duas semanas atrás. Mas apesar de a posição de May permanecer fragilizada, a maioria dos analistas diz que ela provavelmente vai conseguir o apoio de um jeito ou de outro. O PUD, que tem fortes raízes protestantes, tem um importante incentivo para encontrar um terreno comum com a primeira-ministra. Sem a sua ajuda, o governo de May poderia cair e o poder passaria para o Partido Trabalhista de Jeremy Corbin, de oposição, que tem uma história de laços estreitos com republicanos irlandeses.

O teste decisivo virá na próxima semana, quando os parlamentares deverão votar o programa no Discurso da Rainha. Mesmo se May prevalecer, como se espera, ela ainda teria dificuldade de aprovar legislações contenciosas. Se for esse o caso, o programa legislativo de quarta-feira sugeriu que ela deixou de lado várias medidas que já foram peças centrais de sua agenda política.

Isso explica por que não houve nenhuma referência no discurso a propostas de mais grammar schools (escolas secundárias seletivas), que usa testes para determinar admissões, e por que não fez nenhuma menção a planos que requeiram que pessoas idosas paguem mais pelos custos de atendimento de longo prazo em casa - uma proposta descrita por críticos como “imposto demência”.

O discurso da rainha também não fez referência a uma visita de Estado à Grã-Bretanha do presidente Donald Trump, sugerindo que ela não ocorrerá tão cedo.

Em muitos aspectos, o discurso salientou a extraordinária velocidade com que a sorte de May degringolou. No início da campanha eleitoral, ela estava bem à frente nas pesquisas de opinião e esperava conseguir uma vitória suficientemente grande para reformular a política britânica. Boa parte desse apoio evaporou nas últimas semanas.

O discurso refletiu o desejo de May de fazer a Grã-Bretanha se retirar da União Europeia, conhecido como Brexit, sua mais alta prioridade, com vários projetos de lei para proporcionarem o arcabouço legislativo para a medida.

Essa abordagem apresenta seus próprios perigos, contudo, porque a eleição geral não conseguiu proporcionar um endosso à ruptura nítida com o bloco que ela queria - uma ruptura que priorize o controle da imigração aos interesses econômicos. 

Apesar de o Partido Trabalhista ter aceitado o resultado do referendo sobre a retirada da UE, ele quer manter laços econômicos estreitos com o bloco e poderia tentar obstruir partes cruciais dos planos do governo relativos ao Brexit.

Se May abrandar sua posição sobre a retirada do bloco para acomodar pró-europeus preocupados com a economia britânica - entre os quais alguns membros de seu próprio gabinete - ela corre o risco de uma rebelião dos principais apoiadores da retirada. Isso incluiria possíveis sucessores como Boris Johnson, o secretário de Relações Exteriores, e David Davis, o ministro responsável por negociar a saída da Grã-Bretanha da UE. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

 

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