Mazar-i-Sharif, o troféu mais disputado da guerra

Pela maior parte dos 22 anos de guerra do Afeganistão, a cidade nortista de Mazar-i-Sharif foi felizmente ignorada, a única maior cidade afegã que emergiu do conflito sem ser tocada. Mas nos últimos quatro anos, Mazar-i-Sharif já mudou de mãos quatro vezes, um troféu estratégico altamente disputado, que foi palco das mais selvagens batalhas no indefinido conflito afegão. A oposicionista Aliança do Norte afirmou na noite desta sexta-feira que havia expulsado as forças talebans da cidade, em sua primeira grande vitória desde o início, há cinco semanas, da campanha de bombardeio aéreo liderada pelos Estados Unidos. Corredor para suprimentos Se a Aliança do Norte consolidar o controle da cidade, os Estados Unidos poderão enviar para a oposição suprimentos extremamente necessários a partir da fronteira com o Uzbequistão, a apenas 70 quilômetros ao norte. Os norte-americanos poderiam enviar munições, tanques, artilharia e outros armamentos para fortalecer as pobremente equipadas tropas da oposição. O Uzbequistão apóia a campanha antiterrorista liderada pelos EUA e permitiu que 1.000 soldados norte-americanos ficassem estacionados em seu território. Perda isola o Taleban Para o Taleban, a perda de Mazar-i-Sharif ameaça virtualmente todas suas posições no norte do país. As posições talebans ficarão extremamente isoladas e será muito difícil enviar suprimentos para elas. A oposição poderia agora bloquear rodovias e passagens nas montanhas que ligam as linhas de frente do Taleban no norte do Afeganistão, isolando suas tropas e tornando-as vulneráveis. Mazar-i-Sharif é valiosa também por outro motivo: a cidade faz parte da relativamente baixa estepe da Ásia Central, circundada pelas grandes montanhas que dominam a maior parte do norte do Afeganistão. A ligação rodoviária com o Uzbequistão não depende de passagens por montanhas que ficam sob a neve no inverno. Antes da vitória desta sexta, essas frágeis passagens eram a única ligação da Aliança do Norte com a Ásia Central e o resto do mundo. "Sim, estamos interessados em Mazar-i-Sharif", disse o general Tommy Franks, comandante das forças dos EUA no conflito afegão, a repórteres nesta quinta-feira, em Washington. "Ela iria oferecer uma ponte terrestre, como tem sido dito, até o Uzbequistão, que nos daria, entre outras coisas, um corredor humanitário para movermos suprimentos da Ásia Central para o Afeganistão", acrescentou. A União Soviética usou o mesmo corredor quando invadiu o Afeganistão na década de 80 - provando que o inverno não é um grande obstáculo naquela parte do país. Como um grande centro logístico soviético, Mazar-i-Sharif foi bem defendida pelas tropas da ex-URSS e nunca se tornou um campo de batalha durante a ocupação soviética. Domínio feudal O senhor da guerra uzbeque Rashid Dostum, cujas tropas participaram nesta sexta-feira da captura de Mazar-i-Sharif, tomou a cidade pela primeira vez em 1992 e a transformou no centro de seu domínio feudal no norte do Afeganistão. A cidade permaneceu ilesa até que o Taleban a invadiu em 1997, um ano após ter assumido o controle da capital, Cabul, e ter começado a mover-se para o norte. Mazar-i-Sharif foi considerada tão importante, que, quando o Taleban capturou a cidade, três países - Paquistão, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos - reconheceram imediatamente a milícia islâmica como o governo legítimo do Afeganistão. Massacres Mas o Taleban, pashtus étnicos do sul, não eram familiarizados com Mazar-i-Sharif, e suas estreitas ruas e vielas transformaram-se em armadilhas para eles, presas fáceis de emboscadas. Centenas de soldados talebans foram massacrados pela Aliança do Norte, que recapturou a cidade uma semana depois. Mas o Taleban a retomou em 1998 e a manteve - aparentemente até esta sexta. Os dois lados são acusados de terem cometido atrocidades generalizadas nas batalhas pela cidade. Quando o Taleban estava no controle, eles massacraram civis que não eram pashtus, revelou uma investigação da ONU. A Aliança do Norte, por seu lado, jogou prisioneiros talebans em poços e lançou granadas para acabar com eles, segundo a ONU. Soldados da aliança também foram acusados de colocar prisioneiros talebans amarrados e vendados em contêineres de caminhões e levá-los para o deserto fora da cidade. Muitos morriam sufocados, os que sobreviviam eram executados. Centro de peregrinação Em tempos mais pacíficos, Mazar-i-Sharif era o destino de peregrinações, e a tradição diz ser a cidade o lugar em que Ali, o genro do Profeta Maomé, foi enterrado. Sua mesquita de telhado azul é a maior e mais espetacular do Afeganistão. A cidade é cercada por campos verdes que produzem boa parte do trigo afegão. E está localizada no centro de um dos mais ricos campos de gás natural da região. Durante a era soviética, o gás dessa região era exportado para a Ásia Central. Agora, ele abastece todo o norte do Afeganistão. Leia o especial

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