Mbeki aceita deixar a presidência

Presidente da África do Sul afirma que renunciará assim que ?todas as exigências constitucionais forem cumpridas?

REUTERS E AP, O Estadao de S.Paulo

20 de setembro de 2008 | 00h00

O Congresso Nacional Africano (CNA), partido que governa a África do Sul desde o fim do apartheid, em 1994, pediu ontem o afastamento do presidente do país, Thabo Mbeki, cujo mandato terminaria em abril de 2009. Em resposta, Mbeki decidiu retirar-se voluntariamente, mas não disse quando. Em vez de renunciar publicamente, optou por convocar para hoje uma reunião de emergência do governo."O presidente aceita a decisão e renunciará", declarou o porta-voz da presidência, Mukoni Ratshitanga. Pouco depois, em comunicado oficial do governo, Mbeki disse que deixará a presidência "assim que todas as exigências constitucionais forem cumpridas".Segundo analistas, Mbeki tentaria nessa reunião uma saída honrosa, que poderia ser uma renúncia em bloco de seu gabinete ministerial para provar que ainda tem algum poder dentro do partido. A possibilidade de isso acontecer, no entanto, é pequena, já que um de seus ministros mais populares, Trevor Manuel, das Finanças, anunciou ontem que não deixará o governo. CONGRESSOO Parlamento sul-africano se reunirá nos próximos dias para formalizar a renúncia e é provável que a presidente do Congresso, Baleka Mbete, seja nomeada interinamente como chefe de governo da África do Sul. Caberá a Baleka terminar o mandato de Mbeki, no poder desde 1999, ou convocar uma eleição antecipada.O pedido de renúncia do presidente veio depois que o maior rival de Mbeki e atual presidente do CNA, Jacob Zuma, ter sido inocentado de uma acusação de corrupção por um juiz da Corte Suprema, que afirmou ter existido interferência política na investigação que produziu a acusação inicial.Zuma foi vice-presidente de Mbeki por seis anos. Entretanto, em 2005, depois de ser denunciado por corrupção e fraude, foi demitido. Em seguida, caiu de vez em desgraça depois de ser acusado de ter estuprado a filha de um velho companheiro de partido. Zuma sempre se defendeu dizendo que todas as acusações tinham motivação política. Transformado em maior opositor do governo, Zuma derrotou Mbeki nas eleições para presidente do CNA, em dezembro. A vitória praticamente lhe garantiu o posto de sucessor de Mbeki, já que a maioria da população negra vota em bloco no CNA, que simboliza a luta contra o apartheid. Como o partido tem uma fatia cativa de 60% do eleitorado, Zuma dificilmente perderá a eleição.A Constituição sul-africana proíbe Mbeki de tentar um terceiro mandato - eleito pela primeira vez em 1999, ele foi reeleito em 2004 -, mas o presidente sul-africano mantinha esperanças de controlar pelo menos o partido para não entregar o poder para o grupo opositor.POPULISMOCom a saída de Mbeki, a África do Sul está agora nas mãos de Zuma, um tradicional populista de esquerda, que conta com o apoio de sindicatos, comunistas e estudantes. Ao contrário de Mbeki, que sempre teve apoio de empresários e investidores, Zuma é temido pelo mercado. Analistas afirmam, no entanto, que, apesar da retórica, a fama de Zuma dentro do partido é de um político conciliador. Se o processo de substituição for tranqüilo, a reação dos investidores poderá ser moderada.

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