McCain prepara arsenal de ataques

Enquanto os democratas brigam pela indicação do partido, republicanos já têm estratégia para as eleições

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

26 de abril de 2008 | 00h00

Enquanto os pré-candidatos Hillary Clinton e Barack Obama continuam brigando pela indicação democrata, o Partido Republicano prepara sua máquina de ataques para a eleição. Em novembro, os republicanos pretendem usar contra Obama o rótulo de "elitista", o mesmo que derrubou John Kerry, em 2004, e Al Gore, em 2000. Caso Obama seja o indicado, a idéia é mostrá-lo como um professor universitário esnobe, alienado em relação aos problemas da grande classe trabalhadora americana. Alguém que prefere um vinho a uma boa cerveja. Duvidar do patriotismo de Obama e de sua experiência em política externa também são armas incluídas no arsenal republicano. Esse processo de "assassinato de caráter" será usado para desviar a atenção das questões prejudiciais aos republicanos: a guerra no Iraque e a recessão econômica. Em contrapartida, serão reforçadas as credenciais de herói de guerra e sujeito honesto de John McCain, candidato do partido.MUNIÇÃOCaso Hillary seja a indicada dos democratas, a ordem é desencavar todos os escândalos financeiros e sexuais dos tempos em que seu marido, Bill Clinton, ocupava a Casa Branca - inclusive requentar algumas velhas histórias. No processo de montar essa máquina de ataques, os republicanos contaram com a ajuda da própria Hillary, que abriu a temporada de ataques contra Obama.Vídeos do pastor de Obama, Jeremiah Wright, berrando "Deus amaldiçoe a América" foram levados ao ar em anúncios republicanos na Carolina do Norte e, certamente, serão usados no segundo semestre. A ligação de Obama com Bill Ayers, ex-líder de um grupo terrorista que promovia atentados nos anos 60 para protestar contra a Guerra do Vietnã, também criticada por Hillary, servirá de munição para McCain. A gafe do senador, apelidada de "Bittergate", também pode prejudicá-lo. Em uma festa de arrecadação de fundos em São Francisco, há duas semanas, Obama afirmou que os trabalhadores de pequenas cidades da Pensilvânia estavam frustrados com a economia e, por isso, recorriam a armas e à religião. ELITISTAS"Esnobama", que é como os republicanos o chamam, já havia cometido um deslize parecido em Iowa, no início das primárias. Em comício em uma cidadezinha no Estado, ele disse a agricultores que ele também estava indignado com o preço da rúcula no Whole Foods - uma refinada cadeia de alimentos orgânicos que não tem nenhuma filial no interior do país.Foi justamente o rótulo de "elitista" que enterrou a campanha de John Kerry e de Al Gore nas duas últimas eleições. Gore era vice-presidente de Bill Clinton, que fez um governo extremamente popular. Mesmo assim, foi tachado de "pedante". Quatro anos depois, Kerry foi retratado da mesma forma, como um esnobe que falava francês e praticava windsurfe em vez de futebol americano. Apesar de ser negro e filho de mãe solteira, Obama pode cair nessa armadilha. Os republicanos pretendem pintá-lo como um professor universitário que estudou em uma universidade de elite (Harvard) e não sabe como as pessoas vivem no interior do país. "Os republicanos trarão de volta alguns deslizes das primárias", disse Terry Madonna, especialista em pesquisas. "Mas será difícil pintar Obama como elitista, já que ele teve infância pobre e é negro."Outro ponto fraco de Obama, segundo os republicanos, é a sua suposta falta de patriotismo. "Imagens de Obama sem o broche com a bandeira americana na lapela e do senador ouvindo o hino nacional sem por a mão no peito são muito simbólicas", disse John Feherty, estrategista republicano. Os republicanos insistirão também no fato de ele ter um nome estrangeiro e continuarão espalhando que ele é muçulmano. Uma pesquisa da Associated Press e do site de notícias Yahoo, feita no início do mês, mostrou que essa campanha negativa deu certo: 15% dos americanos acham que Obama é muçulmano.Em contraponto à falta de patriotismo de Obama, os republicanos pretendem jogar com a aura de herói de McCain. "Ninguém duvida de seu sacrifício pelo país", disse Luke Bernstein, diretor-executivo do Partido Republicano na Pensilvânia. Uma prévia do que ele pode despejar contra o rival foi dada na sexta-feira quando McCain insinuou que o grupo radical islâmico Hamas apóia Obama. Já os ataques contra Hillary seguiriam o roteiro tradicional conservador: tachá-la de uma feminista envolvida em negócios escusos. Além disso, os republicanos podem se aproveitar de recentes lapsos da senadora para questionar sua credibilidade. Recentemente, ela admitiu que exagerou ao dizer que esteve sob fogo cruzado durante visita à Bósnia. O consenso entre os republicanos era de que Hillary seria uma rival mais fácil de derrotar por ser mais fácil de ser atacada. Obama, de acordo com eles, tem uma aura messiânica e uma personalidade difícil de ser criticada. Contudo, todos os defeitos dela são conhecidos e não haverá surpresas caso ela seja indicada. As falhas de Obama, no entanto, estão apenas começando a aparecer.

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