McNamara e a estupidez americana

O ex-secretário de Defesa dos EUA Robert McNamara morreu há poucos dias, na mesma data em que sete soldados foram mortos no Afeganistão. Não foi o fato de terem morrido no mesmo dia o que me fez lembrar das loucuras de McNamara, mas a sensação de que o seu fantasma paira sobre o novo cemitério dos EUA.A equipe de McNamara, cujos membros eram em sua maioria o produto das universidades de elite dos EUA, foram chamados de "os melhores e mais brilhantes" pelo correspondente de guerra David Halberstam. Eles foram iludidos pela própria arrogância a acreditar em critérios computadorizados, como a contagem de corpos, para medir o sucesso de suas medidas.Apesar do temperamento liberal e secular, eles sustentavam uma crença na vitória com base na fé. No total, 58 mil americanos, além de incontáveis vietnamitas, laosianos, e cambojanos morreram por causa dessas mentes brilhantes. Nenhum deles foi para a cadeia. McNamara assumiu a presidência do Banco Mundial.Hoje, um novo presidente formado em universidades de elite depositou sua fé nos generais e em 300 conselheiros de segurança selecionados nesses círculos da elite. São eles as "novas mentes brilhantes" e acredito que a história mostrará que estão marchando rumo à mesma insensatez.O general David Petraeus formou-se em uma universidade de elite. O mesmo pode ser dito de seu suplente, John Nagl, do Centro para uma Nova Segurança Americana. Também têm esse perfil o general Stanley McChrystal, que preside as operações no Afeganistão e Paquistão, e os colaboradores de Petraeus, formados em Harvard, que o ajudaram a redigir o novo manual de contrainsurgência dos fuzileiros navais e do Exército.Outro exemplo é o guru da contrainsurgência, David Kilcullen, que pede que o programa Fênix, que previa detenções e assassinatos cirúrgicos no Vietnã, seja adotado no Afeganistão e em todo o mundo. Para os desinformados, nesse programa foram presos, torturados e mortos 25 mil supostos vietcongues. Milhões de camponeses foram confinados em "povoados estratégicos". O desastre terminou em 1971, mas Kilcullen insiste que ele foi mal compreendido. Ouvi pela primeira vez o nome de McNamara quando estudava jornalismo na Universidade de Michigan. Um professor da área de humanas me disse que McNamara, formado pela mesma universidade e presidente da Ford Motors, era um homem brilhante com quem era possível dialogar sobre guerra e paz.Fui cético em relação ao emprego feito por McNamara de técnicas científicas de gerenciamento. Não conseguia compreender a mística da inteligência dissociada do entendimento de um mundo imerso em uma transição imprevisível.Hoje, podemos avaliar o legado de McNamara. A Guerra do Vietnã foi a maior insensatez americana do século 20. E a Ford está em ruínas. Como escreveu a compositora Barbara Williams, "quando os homens muito bons interrompem a sua busca, os piores são chamados de melhores".Por qual motivo aqueles sete soldados morreram no sul do Afeganistão? Há membros da Al-Qaeda na região? Não é o que indicam os relatos. Aparentemente, o Taleban faz parte de uma organização que receberá de braços abertos o retorno da Al-Qaeda, a qual, segundo nos alertam, usará suas novas cavernas para planejar ataques contra os EUA. Basta ter o QI de uma samambaia para farejar a estupidez de tudo isto.O Pentágono prevê uma guerra de 18 meses no sul do Afeganistão até que os soldados americanos possam limpar e entregar o entulho aos próprios afegãos. A jogada mais lógica para o Taleban seria atrair os americanos para um sangrento atoleiro em Kandahar e Helmand e depois aparecer em outra parte do país empregando táticas de "ataque e fuga", como fizeram recentemente contra algumas bases americanas isoladas.Em um outro exemplo de idiotia mascarada como inteligência, um porta-voz do Pentágono disse que as sete mortes "eram esperadas". Nagl disse à imprensa que o Taleban e "outros insurgentes" tinham se envolvido em um "combate menos direto do que o esperado".O Taleban e esses "outros insurgentes" usam bombas colocadas nos acostamentos das estradas em vez de se jogarem na frente das armas americanas. Isso, para Nagl, foi surpreendente. Enquanto isso, no Paquistão, país mais perigoso, os "melhores e mais brilhantes" estão parabenizando uns aos outros depois de pressionar o Exército do Paquistão a invadir o Vale do Swat e preparar uma ofensiva contra o Waziristão do Sul.Essa operação provocou mais baixas do que qualquer outra desde a fundação do Paquistão. Os funcionários americanos de agências humanitárias são impedidos de entrar nos campos de refugiados, onde forças favoráveis ao Taleban distribuem comida e medicamentos pagos pelo contribuinte americano. Em um incidente recente, o Taleban aparentemente atacou uma instalação do arsenal nuclear paquistanês.Enquanto isso, no Iraque, o Pentágono é atacado pela coalizão xiita instalada no poder pelo Exército dos EUA, que se gaba de já poder se retirar. Só os mais brilhantes não veem os esforços americanos para disfarçar o fracasso no Iraque. Nada disso aumenta a segurança de americano nenhum. O único resultado é um número cada vez maior de civis aprendendo a detestar os EUA, tanto no Iraque quanto no Afeganistão. Alguns vão se juntar ao Taleban ou à Al-Qaeda. Os europeus logo abandonarão a missão militar da Otan e o presidente Obama ficará preso em uma guerra que ele nunca poderá vencer e não ousará perder. Os melhores e mais brilhantes se acham incapazes de errar e McNamara não reconheceu seus erros por décadas. * Tom Hayden é escritor e pacifista. Entre seus livros está Encerrando a Guerra no Iraque e Os Longos Anos Sessenta: de 1960 até Barack Obama

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