Mediação de País é posta em dúvida

Se Brasil quiser ter papel mais influente nas negociações entre Israel e palestinos, deve estudar o conflito desde o início, diz especialista

Nathalia Watkins, O Estadao de S.Paulo

15 de março de 2010 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

JERUSALÉM

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega ao Oriente Médio com a esperança de pôr o Brasil como moderador do conflito entre israelenses e palestinos. Em Israel, no entanto, analistas creem que a visita será "puramente simbólica" e o Brasil não poderá exercer nenhuma influência na região.

"Nenhum coelho que Lula tire da cartola pode nos surpreender. É muita pretensão acreditar que tudo se resolve com boa vontade", diz o especialista em Oriente Médio da Universidade Hebraica de Jerusalém, Avraham Sela. Ele diz ainda que se o Brasil tem intenções sérias de participar da política do Oriente Médio, "precisa estudar o conflito desde o início".

O analista político palestino George Giacaman, da Universidade Birzeit, próxima a Ramallah, vê como positivo o envolvimento "de outro país, que não os Estados Unidos". Para ele, o Brasil seria bem-vindo ao processo, mas outros líderes internacionais tentaram mediar o conflito e não tiveram sucesso, "Israel só aceita a participação ativa dos americanos porque pode influenciar as posições de Washington", afirma Giacaman.

Hanna Siniora, analista político do Centro Israel-Palestina de Pesquisa e Informação, diz que os palestinos estão de braços abertos para trabalhar com o Brasil e aprofundar as relações com um país "amigo e aliado". "O presidente Mahmoud Abbas deu o primeiro passo e realizou no ano passado a primeira visita de um líder palestino ao Brasil - o que mostra a importância do país para o povo palestino", ressalta Siniora. Na prática, contudo, Siniora acredita que a intenção de Lula não sairá do papel. "Este é um clube fechado", afirma.

De acordo com o diretor do Centro Israelense-Palestino de Pesquisa e Informação, Gershon Baskin, o problema é que o Brasil ainda não tem "peso suficiente e novas soluções para as difíceis questões do Oriente Médio".

Para Baskin, o problema da retomada do diálogo está na divergência sobre o ponto inicial nas negociações. "Netanyahu recusa-se a reiniciar as conversações a partir do ponto em que seu antecessor, Ehud Olmert, as deixou", explica. Como diz, Israel quer discutir antes o formato das conversas, e só depois o conteúdo dos temas centrais no conflito. Nesse quadro, avalia, o Brasil ainda não tem nenhuma condição de assumir um papel relevante.

De acordo com Sela, há questões estruturais que dificultam o sucesso das conversas, como a cisão entre os palestinos. "Metade da população palestina é controlada pelo Hamas na Faixa de Gaza e o grupo não está comprometido com as posições moderadas da Autoridade Nacional Palestina (ANP). São facções inimigas e as tentativas de conciliação fracassaram".

Sela acredita que essa divisão entre os grupos não permite que Abbas inicie um diálogo verdadeiro e produtivo. O analista vê problemas também no lado israelense. "O governo é influenciado basicamente pela ala de extrema direita da coalizão, e não deixa margem a outro fim que não seja o fracasso."

Ele acrescenta que o governo deveria ter dado ordens claras para congelar as construções nos assentamentos.

"A falta de tal determinação e do estabelecimento de uma moratória parcial e por tempo limitado demonstra ausência total de comprometimento", diz. E vai além, ao dizer que o governo atual "fará qualquer coisa" para evitar um acordo: "Que processo de paz é concluído em dez meses? As negociações já duram quase 20 anos."

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