REUTERS/Yazan Homsy
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Mediador da ONU diz que retirada das tropas russas da Síria deve abrir caminho para paz

O governo de Vladimir Putin anunciou na segunda-feira o começo da retirada de suas tropas da Síria e indica que o momento é o de dar um 'estímulo' a um acordo de paz

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S. Paulo

15 de março de 2016 | 08h02

GENEBRA – O mediador da ONU para a guerra na Síria, Steffan de Mistura, declarou que espera que a retirada de tropas da Rússia abra caminho para um acordo de paz no conflito que, hoje, completa cinco anos.

"O anúncio de Putin, no dia do início das negociações, é algo significativo e esperamos que tenha um impacto positivo para o progresso das negociações com a meta de uma solução politica e uma transição pacifica no país", disse De Mistura. A negociação em Genebra tem, como meta, criar um governo de transição em Damasco, aprovar uma nova constituição e convocar eleições gerais em 18 meses.

O governo de Vladimir Putin anunciou na segunda-feira o começo da retirada de suas tropas da Síria e indica que o momento é o de dar um "estímulo" a um acordo de paz.

"Se essa retirada for algo sério, ela dará às negociações um incentivo positivo", admitiu um dos porta-vozes dos rebeldes em Genebra, Salim al Muslat. "Se for real, essa iniciativa representa uma pressão muito grande sobre Assad, já que indica que Moscou não vai o apoiar de forma indefinida", disse.

"Considero que os objetivos estabelecidos pelo Ministério da Defesa foram cumpridos de modo geral", disse Putin. "Por isso ordenei o início da retirada de nossas forças militares da República Árabe da Síria a partir de amanhã. Mas Putin deixou claro que o objetivo da retirada é "estimular" as negociações diplomáticas em curso para o fim do conflito, ainda que mantenha suas bases aérea e marítima em Latakia. "A decisão de hoje será um bom sinal para todas as partes em conflito. Espero que ela represente um aumento da confiança entre os participantes do processo", disse.

Justiça. Se o processo de paz ganha força, a Comissão de Inquérito da ONU sobre Crimes cometidos na Síria alerta que o processo de paz não pode ser um substituto para a Justiça. Na apresentação de seu informe anual, nesta terça-feira, 15, o grupo liderado pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro advertiu aos governos da ONU que se a população síria quer o fim da guerra, ela também quer levar os responsáveis por 260 mil mortes aos tribunais.

"Pela primeira vez em cinco anos, existe uma esperança para o fim do conflito" , afirmou o presidente da Comissão da ONU, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro. Segundo ele, a mediação da ONU conseguiu reduzir a violência e um cessar-fogo, ainda que frágil, está sendo mantido. "Pela primeira vez desde que a guerra começou, civis em diversas partes do país sentem a volta à normalidade em suas vidas diárias", disse Pinheiro.

Mas o brasileiro insiste que apenas chegar a um fim da guerra não será suficiente. "Apesar das melhorias, não podemos esquerer que hoje sérias violações continuam a existir", declarou. "Milhares estão presos e torturados, muitos morrendo nas prisões. Um número incontável de pessoas ainda estão desaparecidas", disse Pinheiro, apontando para as ações do Estado Islâmico e do uso de 3 mil meninas como escravas sexuais.

Pinheiro deixou claro que um acordo político não pode significar o abandono da busca pela Justiça. "O diálogo político precisa incluir a discussão sobre opções de justiça transitória", disse. Durante seus anos de trabalho, Pinheiro lembrou que reuniu centenas de nomes e de crimes de guerra cometidos pelo governo, rebeldes e por terroristas. "Esse trabalho da uma visão precisa do que ocorreu na Síria", disse. "Precisamos que a Justiça continue na mesa de negociação", afirmou.

Quando falamos com as vítimas cujas vidas foram destruídas pelo conflito, sua mensagem é clara: eles querem paz. E eles exigem justiça", disse Pinheiro. "A Comissão de Inquérito apoia fortemente processos para lutar contra a impunidade", alertou.

Retirada. O primeiro grupo de aviões militares da Rússia, incluindo bombardeiros Sukhoi-34, deixou a base aérea de Hmeymim, na Síria, informou o Ministério da Defesa russo nesta terça-feira, 15.

O ministério disse que cada grupo será liderado na volta para casa por um avião de passageiros Tupolev-154 ou por uma aeronave de transporte Ilyushin-76 transportando engenheiros e técnicos, além de carga.

A TV estatal russa mostrou os aviões decolando da base aérea russa na Síria, como parte da retirada de tropas do local após determinação do presidente Vladimir Putin. /COM REUTERS

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