Mediador de crise síria pede trégua em feriado islâmico

Brahimi pede a forças de Bashar Assad e aos rebeldes que cessem fogo durante o Eid al-Adha para abrir espaço para o diálogo

BEIRUTE, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2012 | 03h03

O mediador internacional para a crise da Síria disse ontem que a guerra civil ameaça atravessar fronteiras e atingir o Oriente Médio, e pediu uma trégua temporária que, na sua opinião, poderá assinalar um pequeno passo para estancar 19 meses de conflito.

Lakhdar Brahimi, enviado da Liga Árabe e da ONU, propôs que as forças do presidente Bashar Assad e os combatentes rebeldes suspendam o fogo durante o feriado islâmico do Eid al-Adha, que se inicia na próxima semana.

As autoridades sírias, que culpam os rebeldes pelo fracasso do plano de cessar-fogo de abril, receberam com reservas a proposta de Brahimi, mas disseram que toda iniciativa deve ser respeitada por ambas as partes. A Turquia, um dos países que criticam mais asperamente Assad, e o Irã, um dos seus aliados mais fortes, apoiaram o plano, num raro exemplo de concordância.

Trinta mil pessoas já morreram no levante, que começou com manifestações pacíficas e no qual hoje se enfrentam rebeldes muçulmanos sunitas e o presidente alauita. Há temores de um conflito sectário mais amplo no Oriente Médio entre as potências sunitas, que simpatizam com os rebeldes, e os xiitas que apoiam Assad.

"Essa crise não pode permanecer indefinidamente nas fronteiras sírias. Ou será solucionada ou se espalhará e consumirá tudo", disse Brahimi aos repórteres em Beirute depois de conversações com líderes libaneses.

O Observatório Sírio de Direitos Humanos, com sede na Grã-Bretanha, disse ontem que pelo menos 90 mil pessoas foram mortas na Síria, depois que 150 morreram no dia anterior.

O número de mortes tem sido superior a mil por semana há pelo menos dois meses, enquanto as potências mundiais divididas condenam o derramamento de sangue num conflito que se encontra em ponto morto, mas não concordam a respeito de uma solução política.

No domingo, Brahimi apelou para os líderes do Irã para que apoiem uma proposta de cessar-fogo para a realização do Eid al-Adha, que se iniciará no anoitecer do dia 25.

"Para nós, nenhum sacrifício será grande demais se o sangue parar de correr na Síria pelo menos por um dia, uma hora", afirmou o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Ahmet Davutoglu, a jornalistas numa entrevista em Ancara, afirmando que discutira o plano com seu colega iraniano.

"A Liga Árabe, a Turquia e o Irã declararam seu apoio a essa proposta", disse, e acrescentou que acredita que os que apoiaram o plano façam uma declaração na sexta-feira.

A agência estatal de notícias iraniana citou o presidente Mahmoud Ahmadinejad. Ele disse que o Irã apoia o plano de cessar-fogo temporário e acredita que eleições livres serão o caminho mais certo no futuro.

As autoridades sírias indagaram se os rebeldes das várias facções, que concordaram com uma liderança conjunta na terça-feira para encorajar os países que os apoiam a fornecer armas mais poderosas, se comprometerão a cumprir um acordo de cessar-fogo.

Brahimi informou que figuras da oposição informaram que responderiam imediatamente a um cessar-fogo das forças de Assad com a mesma iniciativa.

"Ouvimos de todas as pessoas da oposição com quem conversamos, e com todas aquelas com as quais nos encontramos que, se o governo parar de usar a violência, eles responderão diretamente a esse gesto", disse.

"Esperamos que esse seja um passo para salvar o povo sírio, porque diariamente estão sendo enterradas centenas de pessoas."

Na quarta-feira, ativistas contrários a Assad postaram vídeos de um suposto helicóptero militar sírio rodando em espiral até espatifar-se no chão e explodindo em chamas.

Rami Abdelrahman, diretor do Observatório Sírio de Direitos Humanos, disse que a aeronave foi abatida perto de Maarat al-Numan. "Alguns rebeldes afirmam que usaram mísseis antiaéreos", disse à Reuters por telefone.

Nos últimos dias, apareceram vídeos amadores de rebeldes disparando mísseis terra-ar de porte pessoal e o ministro do Exterior da França, Laurent Fabius, disse que as armas pesadas adquiridas pelos rebeldes têm obrigado a Força Aérea de Assad a bombardear as áreas rebeldes de grande altitude.

"Em algumas dessas áreas, Assad está utilizando MiGs, o que é particularmente horrível é que está bombardeando com nitroglicerina", afirmou Fabius. "Mas, ao mesmo tempo, em razão de precisarem voar a altitudes muito elevadas, os ataques são menos precisos", disse ele antes de se reunir com membros civis dos conselhos rebeldes que administram as áreas fora do controle do governo. A França começou a enviar dinheiro e ajuda humanitária aos rebeldes da Síria em agosto na tentativa de criar uma alternativa ao governo de Damasco.

Entretanto, o plano francês não garante as áreas seguras protegidas por forças externas de que a oposição afirma necessitar, e oferece poucas esperanças de alívio aos civis que fogem do caos.

A Rússia, que vendeu à Síria armas no valor de US$ 1 bilhão no ano passado, e a China vetaram três resoluções apresentadas pelas potências ocidentais que condenavam as autoridades sírias, abrindo o caminho para sanções da ONU contra Damasco. Paris sustenta que a posição de Moscou só consolidaria o caos na Síria.

A Rússia nega que esteja dando apoio a Assad, o qual permite que os russos mantenham uma instalação naval de abastecimento no porto de Tartus, sua única base militar fora da ex-União Soviética. Mas Moscou afirma que a crise da Síria deve ser solucionada sem interferências externas, particularmente sem intervenção militar. / REUTERS

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