Mediador não vê solução militar para conflito na Colômbia

"Uma guerra como a que vive a Colômbia não terá vencedores, e a solução não surgirá a não ser por meio de uma negociação de paz entre as duas partes." Essa é a opinião do diplomata suíço Jean Pierre Gontar, que nos últimos anos atuou como mediador entre o governo de Bogotá e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).Gontar foi à Colômbia pelo menos uma vez por mês nos últimos anos, e sua mediação era aceita tanto pelas Farc quanto pelo governo de Pastrana. Seu trabalho: colocar em contato líderes guerrilheiros e autoridades em encontros secretos.Com o fim do diálogo, Gontar interrompeu as viagens e falou à Agência Estado sobre o conflito, que já dura 38 anos. Eis os principais trechos da entrevista: AE - Quais as conseqüências do fim das negociações? Gontar - Existe o risco de que a violência tome conta de todo o país. Diante dos ataques do governo, a guerrilha pode decidir atuar em áreas da Colômbia que até hoje não haviam sofrido com a guerra. Trata-se de uma tática para tentar fazer com que o Exército colombiano tenha de se deslocar a várias regiões ao mesmo tempo. AE - A decisão de Patrana de partir para o ataque era a única saída que restava ao governo? Gontar - Uma guerra como a da Colômbia não terá vencedores. A solução só surgirá por meio de uma negociação. Em algum momento, os líderes terão de voltar a se sentar em volta da mesa e discutir um plano de paz. AE - O governo colombiano pode vencer a guerrilha militarmente? Gontar - Se olharmos a história contemporânea, podemos ver que uma guerrilha forte como a colombiana não pode ser derrotada com helicópteros. Esse foi o caso dos americanos no Vietnã e em El Salvador. Por que agora o governo colombiano ganharia uma guerra com essas características, principalmente diante da experiência adquirida pelas Farc nos últimos anos? AE - A Guerra e a escalada de violência podem atingir o Brasil? Gontar - Não acredito que a guerrilha vá ao Brasil. Trata-se de uma guerrilha colombiana, que tem seus recursos no próprio território colombiano. AE - Mas, na sua avaliação, existe o perigo da internacionalização do conflito? Gontar - O perigo existiria se os EUA se envolverem militarmente. Neste caso, creio que países como Brasil e Venezuela deveriam preocupar-se. Certamente, um cenário como este mudaria a política externa e as estratégias de defesa dos países sul-americanos. AE - Quem ganharia com uma eventual internacionalização desse conflito? Gontar - Apenas os narcotraficantes. Para eles, quanto mais dividido estiver o poder, melhores são suas chances de atuação.

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