Mohammed Abed/AFP
Mohammed Abed/AFP

Mediadores pressionam para restaurar cessar-fogo em Gaza após ataques noturnos

Diplomatas estrangeiros trabalham para acalmar tensões após primeiro conflito entre Hamas e Israel desde maio

Patrick Kingsley e Adam Rasgon, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2021 | 15h00

CIDADE DE GAZA - Mediadores internacionais intensificaram esforços nesta quarta-feira, 16, para intermediar uma trégua de longo prazo entre Israel e o Hamas, grupo militante que domina a Faixa de Gaza, após a primeira troca armada entre os dois lados desde o fim do conflito de 11 dias em maio.

Diplomatas egípcios e das Nações Unidas estavam mediando conversas entre os dois lados, disseram duas pessoas sob condição de anonimato. O esforço seguiu-se a um dia de escalada de tensões na terça-feira, quando judeus de extrema direita marcharam, com permissão do governo, pelos bairros palestinos em Jerusalém. Em resposta, militantes em Gaza enviaram vários balões incendiários contra Israel, causando 26 incêndios, e aeronaves israelenses dispararam mísseis contra vários postos militares em Gaza nas primeiras horas da manhã de quarta-feira. Nenhuma vítima foi relatada.

A escalada foi o primeiro grande teste para o frágil novo governo israelense que no domingo substituiu Binyamin Netanyahu, o líder mais longevo do país, depois de ganhar um voto de confiança do Parlamento. Sua primeira grande decisão foi permitir a provocadora marcha da extrema direita, uma decisão que irritou os membros árabes e de esquerda da coalizão.

Israel e Hamas indicaram que não pretendem aumentar o conflito, disse um diplomata nesta quarta-feira. Uma força-tarefa egípcia estava no terreno em Gaza nesta manhã, removendo os destroços da guerra de maio e tentando preparar o terreno para um esforço de reconstrução de longo prazo.

Mas a liderança do Hamas não descartou publicamente novos ataques a Israel. Moussa Abu Marzouk, um membro sênior da ala política do Hamas, com base no Catar, disse por telefone que a decisão seria tomada pela liderança militar do grupo.

Uma trégua mais profunda permanece indefinida, com Israel, Hamas, a liderança palestina na Cisjordânia ocupada e doadores internacionais ainda elaborando um mecanismo para entregar ajuda, dinheiro e materiais para reconstruir Gaza após a guerra em maio.

“A ONU está em contato com todas as partes relevantes sobre questões relacionadas à cessação das hostilidades”, disse Tor Wennesland, coordenador especial das Nações Unidas para o processo de paz no Oriente Médio. “Este ainda é um trabalho em andamento com mais a ser feito. ”

A guerra de maio matou mais de 250 palestinos e 13 residentes israelenses, de acordo com as Nações Unidas. Em Israel, foguetes palestinos destruíram vários apartamentos, carros e ônibus, danificaram um gasoduto e fecharam brevemente dois aeroportos importantes. Em Gaza, ataques israelenses danificaram casas, clínicas, hospitais e escolas, bem como linhas de energia, instalações de esgoto e três grandes usinas de dessalinização, disse a ONU.

Mas enquanto diplomatas dizem que materiais de consturção começaram a entrar em Gaza através do Egito, Israel limitou o que pode chegar por meio de seus pontos de passagem, enquanto se aguarda um acordo de longo prazo. Também bloqueou o fornecimento de ajuda financeira do Catar; antes da guerra, o país do Golfo enviava cerca de US $ 30 milhões todos os meses para ajudar a estabilizar a economia de Gaza. 

Israel e o Hamas discordam sobre a inclusão de uma troca de prisioneiros como parte de qualquer acordo de cessar-fogo mais forte. Israel quer que o Hamas devolva dois israelenses desaparecidos que se acredita estarem presos em Gaza e os restos mortais de dois soldados israelenses que também estariam lá. O Hamas busca a libertação de prisioneiros palestinos dentro das prisões israelenses.

O processo também é complicado pelo desejo da Autoridade Palestina - que exerce autonomia limitada em partes da Cisjordânia ocupada e que o Hamas expulsou de Gaza em 2007 - de desempenhar um papel na coordenação de qualquer ajuda futura.

Israel e Egito controlam o que entra e sai de Gaza, bem como a maior parte de sua eletricidade e combustível. Israel tem a maior palavra, uma vez que as principais rotas de abastecimento para Gaza passam pelos portos israelenses. O país também controla o registro de nascimento de Gaza, o espaço aéreo e o acesso ao mar e aos dados celulares, e restringe o acesso dos palestinos às terras agrícolas no perímetro da faixa.

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