Doug Mills/NYT
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Médico americano afirma ter sido transferido após questionar eficácia da hidroxicloroquina

Rick Bright liderava agência federal dos EUA envolvida no desenvolvimento de vacina contra coronavírus; uso de medicamento é defendido por Donald Trump

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2020 | 19h38

NOVA YORK - Um médico americano afirmou nesta quarta-feira, 22, ter sido removido de seu posto federal após exigir uma rigorosa verificação do tratamento contra o novo coronavírus à base de hidroxicloroquina defendido pelo presidente Donald Trump.

O médico, que liderava a agência federal envolvida no desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus, disse que a ciência, não "política e compadrismo", deve liderar o caminho.

O Dr. Rick Bright foi realocado abruptamente nesta semana como diretor da Autoridade Biomédica Avançada de Pesquisa e Desenvolvimento do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, ou BARDA, e como vice-secretário assistente de preparação e resposta.

No lugar, ele recebeu um trabalho mais restrito nos Institutos Nacionais de Saúde. "Acredito que essa transferência foi uma resposta à minha insistência em que o governo invista os bilhões de dólares alocados pelo Congresso para tratar da pandemia da covid-19 em soluções seguras e cientificamente examinadas e não em medicamentos, vacinas e outras tecnologias que não têm mérito científico", declarou em comunicado à Maggie Haberman do jornal The New York Times.

"Estou falando porque, para combater esse vírus mortal, a ciência - e não a política ou o compadrismo - precisa liderar o caminho", disse ele.

A Casa Branca se recusou a comentar. Uma porta-voz de Alex Azar, secretário de saúde e serviços humanos, não respondeu imediatamente a um e-mail pedindo comentários. A publicação médica Stat informou na terça-feira, 21, que Bright havia entrado em conflito com Bob Kadlec, secretário de saúde assistente para preparação e resposta.

Bright, que observou que toda sua carreira foi dedicada ao desenvolvimento de vacinas dentro e fora do governo, liderava a BARDA desde 2016.

Na declaração, ele disse: “Minha formação profissional me preparou por um momento como este - para enfrentar e derrotar um vírus mortal que ameaça americanos e pessoas em todo o mundo. Até este ponto, liderei os esforços do governo para investir na melhor ciência disponível para combater a pandemia da covid-19."

“Infelizmente, isso resultou em confrontos com a liderança política do HHS, incluindo críticas por meus esforços proativos de investir cedo em vacinas e suprimentos essenciais para salvar vidas americanas. Também resisti aos esforços para financiar drogas potencialmente perigosas promovidas por pessoas com conexões políticas ”, afirmou.

Bright, oficial de carreira e não nomeado político, apontou especificamente para os esforços iniciais para tornar a cloroquina e a hidroxicloroquina amplamente disponíveis antes de serem cientificamente testadas quanto à eficácia contra o coronavírus.

"Especificamente, e ao contrário de diretrizes equivocadas, limitei o amplo uso de cloroquina e hidroxicloroquina, promovido pelo governo como uma panacéia, mas que claramente não tem mérito científico", afirmou.

"Enquanto estou preparado para analisar todas as opções e pensar 'fora da caixa' para tratamentos eficazes, resisti com razão aos esforços para fornecer uma droga não comprovada sob demanda ao público americano", disse Bright.

“Esses medicamentos têm riscos potencialmente graves associados, incluindo o aumento da mortalidade observado em alguns estudos recentes em pacientes com covid-19", acrescentou. /NYT

 

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