Leonardo Fernandez Viloria/REUTERS
Leonardo Fernandez Viloria/REUTERS

‘Médico dos pobres’ é beatificado na Venezuela em cerimônia sem aglomeração por conta da covid

José Gregorio Hernández lutou contra a gripe espanhola no país há pouco mais de um século

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2021 | 10h00

CARACAS- José Gregorio Hernández, o "médico dos pobres" venerado como santo na Venezuela, será beatificado nesta sexta-feira, 30, em uma cerimônia reduzida devido à pandemia de covid-19.

A beatificação, que acontecerá em Caracas, recebe uma aura singular ao ser realizada em meio à pandemia  – Hernández lutou contra a gripe espanhola há pouco mais de um século.

"Sua beatificação ocorre em um momento dramático", disse à Agência France-Presse o núncio apostólico Aldo Giordano. "Como cientista que lutou contra os vírus, está escrito nas estrelas que ele tinha que ser beatificado quando a humanidade precisa de esperança, precisa encontrar um caminho".

Giordano presidirá a cerimônia na ausência do cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, que cancelou a viagem devido à pandemia.

Na Venezuela, José Gregorio Hernández é objeto de verdadeira devoção. Ele se distinguiu por prestar ajuda gratuita aos mais humildes durante a epidemia de gripe espanhola no início do século XX, que matou milhões de pessoas em todo o mundo.

Ele morreu em 1919, aos 54 anos, atropelado por um carro em Caracas.

"Vai ficar tudo bem!"

Nos últimos dias, murais com seu rosto foram pintados por todo o país, enquanto os detalhes da cerimônia são refinados. A homenagem ao símbolo nacional transcende todas as divisões políticas e sociais.

Não é incomum que um venezuelano tenha em casa um pintura de Hernández, ou uma estatueta com velas ou um copo d'água (uma das tradições ao fazer pedidos a ele).

O decreto de beatificação foi assinado pelo papa Francisco em junho de 2020, após a aprovação de um milagre em 2017.

Yaxury Solorzano, de 10 anos, sobreviveu após sofrer um ferimento grave à bala. Sua mãe rezou a José Gregorio Hernández para salvar sua filha.

Sentiu, segundo relata a Conferência Episcopal Venezuelana (CEV), uma mão em seu ombro e uma voz: "Fique calma, vai ficar tudo bem!"

A beatificação é a última etapa antes da canonização.

Yaxury e sua família, junto com parentes do Dr. Hernández, estão entre as 150 pessoas que participarão da cerimônia na pequena e moderna igreja do Colegio La Salle em Caracas.

"Esta cerimônia será muito austera, muito sóbria, muito simples, mas carregada de muita espiritualidade", disse Albe Pérez-Perazzo, coordenadora da comissão de beatificação.

"É difícil não poder convocar reuniões em espaços públicos quando estamos justamente celebrando a beatificação do médico daqueles que mais precisam de ajuda", acrescentou a responsável, destacando que a causa para a beatificação está "aberta há mais de 70 anos".

"Casas em templos"

A Venezuela, com 30 milhões de habitantes, enfrenta desde março uma forte segunda onda do coronavírus, ultrapassando 2 mil mortes e mais de 200 mil infecções confirmadas.

Os números oficiais têm sido questionados pela oposição e por ONGs, em razão da elevada subnotificação evidenciada pelos hospitais lotados e múltiplos pedidos de ajuda financeira nas redes sociais para custear tratamentos da doença. 

Neste cenário, Pérez-Perazzo exortou os fiéis a "transformar todas as nossas casas (...) em pequenos templos", lembrando que a cerimônia será transmitida pela televisão.

Além da beatificação, relíquias do "JGH" - como o chamam - serão entregues a cada uma das dioceses do país.

Entre os milhões de venezuelanos que acompanharão a cerimônia pela televisão, destaca-se a família Cañizalez, que afirma que o nascimento de seus gêmeos foi um "milagre", não reconhecido pela Igreja. 

"Quando minha mãe estava grávida, quase nos perdeu", explicou Ana Cañizalez, de 19 anos, estudante de arquitetura.

"Rezou muito a José Gregorio e ao Senhor para que tivéssemos saúde. Foi a Isnotú", local de nascimento e centro de peregrinação do médico nos Andes venezuelanos, "e aqui estamos".

"Temos uma escultura em casa", contou. "Eu sempre agradeço a ele, por mim e minha família. Ele merece a beatificação". /AFP

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