Médico dos ?sem fronteiras? prevê guerra tribal no Afeganistão

A reconstrução do poder no Afeganistão, depois da "previsível queda" do Taleban, vai esbarrar na completa fragmentação política do país e pode dar origem à uma guerra prolongada de resistência contra eventuais tropas estrangeiras em território afegão, avaliou para a Agência Estado, o médico brasileiro Mauro Bueno. Ele atuou durante dois anos para a organização Médicos Sem Fronteira (MSF) em missões humanitárias no Afeganistão. Bueno foi o único voluntário brasileiro a atuar no país depois da retirada das tropas soviéticas. Ele conviveu com o líder Ahmed Massud, assassinado por suicidas talebans dias antes dos atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos. "Os talebans sabiam o que estavam fazendo", avalia ele. "Massud era o único homem que poderia unir os comandantes mais fortes destas centenas de grupos tribais que atuam no país." Bueno comandou equipes da MSF na construção de hospitais em regiões inóspitas do Afeganistão e, há mais de dez anos, acompanha de perto a trajetória social e política do país. É autor de dois livros sobre a história e a vida do povo afegão. Parte de sua vida ali, Bueno passou em missões na região do Badakhshan, norte do país - onde hoje está instalada a efêmera Aliança do Norte. "Esta aliança, a rigor, não existe. É um amontoado de grupos que se opõem aos talebans, mas tão fragmentado como todo o poder político no país", conta ele. A imagem do Afeganistão como um país politicamente estruturado, segundo Bueno, é uma distorção comum nas análises recentes feitas por jornalistas ocidentais. "Na verdade, ali não existem nem fronteiras como as conhecemos por aqui. A organização social está na mão dos chamados comandantes, que lideram grupos tribais", lembra Bueno. Tênues alianças e leis As cidades e vilarejos sempre viveram ao sabor das alianças tênues destes comandantes. "De um dia para o outro, nos lugares onde estávamos, a lei mudava por causa de uma ou outra mudança de comando. Num dia podíamos ouvir rádio, no outro ele já era proibido e assim por diante", conta o médico. Ele se lembra de um período em que as alianças de comando, no vilarejo onde estava, chegavam a mudar mais de uma vez por semana. "E a cada novo comando, uma nova lei", afirma. Bueno afirma que a história milenar do Afeganistão sempre mostrou a fragilidade das alianças tribais. "Elas se desmancham na mesma velocidade com que são feitas", diz ele. Guerra surda de resistência Osama bin Laden, com o poder de muito dinheiro e escorado no fundamentalisto religioso dos talebans, conseguiu introduzir uma unidade mínima entre os grupos tribais, na avaliação de Bueno. "A dissolução deste poder e qualquer tentativa de introduzir um regime artificial vai provocar uma guerra surda de resistência", acredita. As tribos afegãs tem a guerra no sangue e lutam até pelo hábito. "São guerreiros muito fortes e altivos, enrijecidos pela paisagem inóspita e pelo clima que atinge até 32º C negativos no inverno", conta ele. Bueno acompanhou guerreiros afegãos nos túneis que eles utilizavam para combater os soviéticos. "Quando o exército soviético descobriu os túneis, começou a jogar gás letal no interior deles para aniquilar as patrulhas, mas os afegãos descobriram que enfiando o rosto no barro e respirando dentro dele sobreviviam. O barro funcionava como uma máscara natural", conta. Assim que o gás se dispersava, eles saíam sorrateiramente dos túneis e matavam com facas os soldados soviéticos. "É praticamente impossível vencê-los em seu território se eles estiverem unidos contra um inimigo comum. Isso só seria possível com um genocídio sem precedentes", acredita Bueno. Desde o início dos ataques ao Afeganistão, Bueno começou a se mobilizar para organizar no Brasil a ajuda humanitária ao Afeganistão. "Ela será inevitável e necessária", diz ele. O médico lamenta a incapacidade brasileira de agir em missões humanitárias no mundo. Bueno já rodou inúmeros países da Ásia e da África em missões médicas. "No Afeganistão, depois da saída soviética, atuaram 90 ONGs de 30 países. O Brasil não estava e eu era o único voluntário brasileiro, por intermédio de uma missão francesa", lembra. Leia o especial

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