MÉDICO JUDEU SALVA LÍDERES DO HAMAS

Meta de Israel é dar fim à cúpula de grupo radical

FERNANDA SIMAS, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2014 | 02h00

Uma "ilha de paz em Israel". Esse é o nome dado pelo médico israelense especializado em traumas e ferimentos de guerra Avi Rivkind ao hospital onde atua há 30 anos em Jerusalém, o Hadassah. "Algo que discutimos aqui é 'tratar ou não tratar'. E a resposta é relativamente fácil, pelo menos para mim, porque paciente é paciente. Se ele precisa de tratamento, temos de tratar. Valorizo a vida e farei de tudo para salvar uma vida. Não devemos brincar de Deus e decidir quem vive ou não, temos de fazer tudo para que a pessoa viva. Se ela merecer ir para a prisão, que assim seja", disse o médico ao Estado.

Rivkind lembra da cirurgia que fez em Abu Hassan Salah, autoridade do Hamas, nos anos 90. "Estamos acostumados a tratar nossos inimigos. Eu operei Hassan Salah, o segundo homem do Hamas. Ele foi responsável pela explosão de 18 ônibus em uma semana em 1994 ou 1995 e escapou. Um soldado nosso (israelense) o capturou e o levou até nós. Recebi o chamado entre 2 e 3 horas da manhã de um sábado e o operei. Ele está vivo e preso agora, pela morte das 58 pessoas nos ataques."

Os feridos passam por uma triagem de acordo com o tipo do ferimento ainda no local dos confrontos. Depois, são levados de helicóptero ou ambulância até o hospital.

Torcida por acordo. O acordo de segunda-feira para um cessar-fogo ilimitado entre Israel e o Hamas é visto como positivo pelo médico. "Espero que o cessar-fogo seja mantido para nosso bem e o deles. Olhando as imagens aéreas, a condição deles é pior, terão de reconstruir tudo", disse.

No entanto, ele critica o que considera a falta de uma oposição interna mais ativa contra o Hamas. "Talvez haja uma oposição lá, mas ninguém conhece", declarou. "No fim das contas, as pessoas que vivem lá aceitaram o Hamas, mesmo que por meio da omissão."

Há 20 anos, o hospital desenvolve um projeto com estudantes que terminam a faculdade de Medicina com a intenção de mostrar como os médicos devem intervir em casos de atos terroristas ou grandes acidentes.

Para Rivkind, a maior recompensa em lecionar é ver os alunos praticando. "Numa ocasião, um dos alunos estava num trem quando ocorreu um acidente em Tel-Aviv. Ele saiu, colocou um estetoscópio para poderem lhe identificar como médico e fez toda a triagem no local. Mais tarde me ligou e agradeceu. 'Fiz exatamente o que você nos ensinou no curso'. Nós praticamos como salvar vidas." "Talvez eu seja um otimista e não um realista", diz o médico, ressaltando que o trabalho no hospital recebe mais atenção em meio ao conflito. "Temos um médico palestino lá, que trata dos judeus sem restrição."

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