Brandon Thibodeaux/The New York Times
Brandon Thibodeaux/The New York Times

Médico vacina às pressas para não perder doses perto de vencer e acaba demitido nos EUA

Hasan Gokal foi acusado de roubar doses do imunizante por tê-las aplicado em pessoas fora dos grupos prioritários

Dan Barry / The New York Times, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2021 | 19h00

O médico no Texas tinha seis horas. Agora que um frasco de vacina contra a covid-19 havia sido aberto em uma noite no fim de dezembro, ele precisava encontrar dez pessoas para receber as doses remanescentes antes de a vacina preciosa chegar ao fim de sua validade. Em seis horas.

O médico foi correndo às casas de algumas pessoas e orientou outras a ir à casa dele, nos arredores de Houston. Algumas eram conhecidas dele, outras, não. Uma senhora de mais de 90 anos acamada. Uma mulher com 80 e tantos anos com demência. Uma mãe com um filho que usa respirador pulmonar.

Depois da meia-noite, faltando apenas minutos para a vacina se tornar inutilizável, o médico em questão, Hasan Gokal, deu a última dose à sua mulher, que sofre de uma doença pulmonar que a deixa com falta de ar.

Por seus atos, Gokal foi demitido de seu emprego no setor público e acusado criminalmente de roubar dez doses de vacina, no valor total de US$ 135 (R$ 724) -uma contravenção repreensível que levou seu nome e foto a percorrerem o planeta.

“Foi o desabamento do meu mundo”, disse Gokal em entrevista por telefone. “Vi tudo desmoronando em cima de mim. Foi o pior momento de minha vida.”

A história de Gokal se desenrola em um momento em que americanos cansados da pandemia vasculham websites e vão a outros estados caçando rumores, na busca ansiosa por um medicamento cuja oferta é escassa. O caso dele é um convite à interpretação e virou um estudo na bioética do tipo aprenda-enquanto-você-faz da distribuição canhestra da vacina nos Estados Unidos.

No final de janeiro, um juiz considerou a acusação infundada. Uma promotora pública local então prometeu levar o caso a um grande júri. E, enquanto promotores retratam o médico como um oportunista frio, seu advogado afirma que ele agiu de modo responsável, até mesmo heroico.

“Todo o mundo estava olhando para esse homem e dizendo ‘tenho minha mãe à espera da vacina, meu avô na espera’”, disse o advogado, Paul Doyle. “As pessoas estavam pensando ‘esse sujeito é um vilão’.”

No dia 22 de dezembro, Gokal participou de uma videoconferência em que autoridades de saúde estaduais explicaram os protocolos para a administração da vacina da Moderna, que fora aprovada recentemente. A vida útil das 10 ou 11 doses contidas em cada frasco da vacina é de seis horas depois de o selo ser perfurado.

Gokal disse que a recomendação ouvida foi vacinar pessoas pertencentes à categoria 1(a) (profissionais de saúde e residentes em casas de atendimento de idosos de longa permanência), depois à categoria 1(b) (pessoas com mais de 65 anos ou com uma condição de saúde que eleva o risco de sintomas graves associados à covid-19).

Depois disso, segundo ele, a orientação era: “Simplesmente aplique a vacina nos braços de pessoas. Não queremos que nenhuma dose seja desperdiçada. Ponto final”.

No dia 29 de dezembro, Gokal chegou antes do amanhecer a um parque em Humble, subúrbio de Houston, para chefiar um evento de vacinação voltado principalmente a profissionais de serviços de emergência.

Em parte devido à baixa divulgação do evento, o ritmo de atendimento foi lento, e não mais que 250 doses foram aplicadas. Mas era o primeiro evento público de vacinação no condado, disse Gokal. “Sabíamos que haveria pequenos problemas.”

Por volta das 18h45, com o evento chegando ao fim, uma pessoa chegou para ser vacinada. Uma enfermeira perfurou um frasco novo para lhe administrar a vacina, assim ativando a contagem regressiva de seis horas para o término da validade das dez doses remanescentes no frasco.

As chances de dez pessoas que se enquadravam nas categorias visadas para receberem a vacina aparecerem de repente eram pequenas. Já estava escuro, e os funcionários estavam ligando os faróis de seu carro para iluminar o local. Mas Gokal disse que estava determinado a não desperdiçar uma única dose.

Ele disse que primeiro convidou os cerca de 20 funcionários que estavam trabalhando no evento. Alguns recusaram, outros já haviam sido vacinados. Os paramédicos no local já tinham ido embora, e dos dois policiais presentes, um havia sido vacinado e outro rejeitou a oferta do médico.

Gokal disse que telefonou ao funcionário de saúde pública do condado de Harris encarregado das operações para lhe informar de seu plano de procurar dez pessoas para receber as doses remanescentes. O funcionário lhe teria dito simplesmente: “OK”.

Ele disse que então telefonou a outro colega cujos pais e sogros faziam parte das categorias prioritárias. Não conseguiu encontrá-los.

O médico pensou que, se devolvesse o frasco aberto ao escritório de seu departamento naquele horário, quando o local quase certamente estaria vazio, as doses seriam desperdiçadas. Assim, enquanto voltava de carro para sua casa em um condado vizinho, Gokal começou a telefonar a pessoas da lista de contatos de seu celular para perguntar se tinham familiares ou vizinhos mais velhos que precisavam ser imunizados.

“Ninguém com quem eu estivesse familiarizado intimamente”, disse Gokal. “Eu não conhecia nenhuma dessas pessoas muito bem.”

Na manhã seguinte, contou, ele apresentou a documentação relativa às dez pessoas que vacinara na noite anterior, incluindo sua esposa. Disse que informou seu supervisor e seus colegas do que havia feito e explicou o porquê.

Alguns dias mais tarde, disse Gokal, aquele supervisor e o diretor de recursos humanos o convocaram para perguntar se ele havia administrado dez doses da vacina fora do evento programado de 29 de dezembro. Ele respondeu que sim, seguindo as diretrizes de não desperdiçar a vacina. Foi demitido sumariamente.

Seus superiores alegaram que Gokal violara o protocolo e que deveria ter devolvido as doses restantes ao escritório ou as jogado fora, recordou o médico. Ele disse também que um dos funcionários o surpreendeu ao questionar a falta de “equidade” entre as pessoas que ele vacinara.

“Você está sugerindo que havia muitos nomes indianos nesse grupo?”, Gokal disse que perguntou. "Exatamente", foi a resposta.

Elizabeth Perez, diretora de comunicações do departamento de saúde pública do condado de Harris, disse que o departamento não podia dar declarações sobre seus protocolos, sobre o evento de vacinação de 29 de dezembro ou sobre o caso de Gokal.

No dia 21 de janeiro, cerca de 15 dias após a demissão do médico, um amigo lhe telefonou para dizer que um repórter local acabara de publicar um tuíte sobre ele. Nesse mesmo momento um dos três filhos de Gokal foi abrir a porta para alguém que tocara a campainha e se deparou com holofotes e um microfone enfiado em sua cara. Abalado, o garoto de 16 anos fechou a porta e disse: “Pai, tem gente lá fora com câmeras”.

Foi assim que Gokal soube que havia sido acusado criminalmente pelo roubo de doses da vacina.

A promotora pública do condado de Harris, Kim Ogg, acabara de divulgar um comunicado à imprensa com a manchete: “Médico demitido de Harris County é acusado de roubar frasco de vacina contra a covid-19”.

O documento alegava que Gokal “roubou o frasco” e desrespeitou protocolos do condado para assegurar que as vacinas não sejam desperdiçadas e sejam dadas a pessoas com direito a elas e que constam de uma lista de espera. “Ele abusou de seu cargo para colocar seus amigos e familiares na frente da fila, antes de pessoas que haviam passado pelo processo regular para estarem ali”, disse Ogg.

Mas Gokal disse que ninguém da Promotoria Pública o contatara, em momento algum, para ouvir sua versão dos fatos. E, quando seu advogado pediu cópias dos protocolos escritos e da lista de espera mencionados na denúncia, um promotor lhe disse em e-mail que não havia protocolos escritos do final de dezembro, nem fora encontrada uma lista de espera escrita.

Dias mais tarde, um juiz de uma corte criminal, Franklin Bynum, rejeitou a ação por falta de causa provável.

“No número de palavras geralmente usadas para descrever uma alegação de furto em uma loja, o Estado, pela primeira vez, procura criminalizar a administração documentada de doses de vacina por um médico durante uma emergência de saúde pública”, ele escreveu. “A corte rejeita enfaticamente essa tentativa de impor a lei criminal às decisões profissionais de um médico.”

Tanto a Associação Médica do Texas quando a Sociedade Médica do Condado de Harris emitiram comunicado recentemente em apoio a médicos como Gokal, que se veem tendo que correr “para evitar o desperdício de vacinas em um frasco perfurado”.

“É difícil entender qualquer justificativa apresentada para acusar criminalmente qualquer médico bem intencionado que se vê nessa situação”, diz o comunicado.

Dane Schiller, o diretor de comunicações da promotora pública, negou-se a responder a perguntas sobre o caso. Disse em e-mail que, quando a questão for submetida ao grande júri, “representantes da comunidade poderão decidir pelo voto se um indiciamento criminal é justificado”.

Enquanto isso, diz Gokal, ele continua pagando o preço por não ter desperdiçado vacinas em uma pandemia. Relatando o que lhe aconteceu, sua voz falhou.

Ele perdeu seu emprego. Sua esposa não consegue dormir. Seus filhos estão preocupados. E hospitais lhe disseram para não voltar enquanto seu caso não for decidido.

Ele está passando seu tempo trabalhando como voluntário numa clínica de saúde sem fins lucrativos para pacientes sem convênio médico. E vive assombrado o tempo todo ao perceber que, seja qual for o desfecho, a história vai circular lá fora: a história daquele médico paquistanês em Houston que roubou todas aquelas vacinas. “Como posso reverter isso?”, perguntou.

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