Meridith Kohut/The New York Times
Meridith Kohut/The New York Times

Médicos criticam falta de higiene de hospitais venezuelanos

Médica que vive no Brasil há três anos lembra situações limites, como atender pacientes no chão

Claudia Müller, O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2018 | 05h00

A dificuldade para encontrar produtos básicos fez com que mães dessem mamadeiras com água onde foi fervido macarrão e batata na esperança de nutrir seus bebês de alguma forma, já que não há mais leite na Venezuela. Isso foi em 2014, mas a médica Elaine Kummerow, de 27 anos, sabe que a situação atual é pior.

Ainda na faculdade, Elaine conviveu com a precariedade do sistema de saúde. Em Valencia, onde vivia, atendeu crianças que tiveram os pais assassinados e tinham de ser mantidas internadas, mesmo saudáveis, para não serem abandonadas. 

Ela conta que atendeu pacientes no chão do hospital e usou garrafas de água de contrapeso para corrigir a fratura no ângulo certo. “Era comum faltar luz e, em uma das vezes, precisamos pedir para residentes fazerem ventilação manualmente nos pacientes, pois a mecânica não funcionava.”, explica Elaine, que mora no Brasil há três anos.

Com a falta de água, a higiene ficava precária e muitas cirurgias tinham de ser canceladas. “Certas emergências eram aceitas de maneira equivocada só para não deixarmos o paciente morrer na porta do hospital.”

A ONU e a OEA demonstram preocupação com a crise e pedem que o governo aceite a ajuda internacional. Em declaração conjunta, cinco especialistas destacaram em relatório que um dos sinais da crise é o fato de que 16 crianças morreram desde o começo do ano em um só hospital, em Lara, por conta das condições de higiene. 

“Chegamos ao ápice da crise no sistema sanitário da Venezuela”, indicam os relatores Dainius Pras, Michel Forst, Philip Alston, Rosa Kornfeld-Matte e Soledad García Muñoz. “Isso é responsabilidade do Estado e o acesso à saúde está em deterioração. Os hospitais se transformaram em locais onde a vida das pessoas é colocada em risco.” 

“É preocupante que crianças estejam morrendo de causas que poderiam ser prevenidas relacionadas ao estado das instalações de saúde, escassez de insumos, remédios e falta de limpeza”, afirmaram. Segundo ONU e OEA, quem denuncia o descaso é alvo de assédio e intimidação. / COM JAMIL CHADE 

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