Médicos cubanos em fuga

Muitos cruzaram da Venezuela para a Colômbia, onde aguardam a ajuda dos Estados Unidos que não chega

Jim Wyss, Miami Herald

23 de agosto de 2015 | 03h00

Trabalhar na Venezuela, país onde eles tinham de ficar horas na fila para comprar comida, qualquer gesto, por menor que fosse, era bem-vindo. Por isso, Félix Pérez, sua filha e dois colegas - trabalhadores da saúde cubanos - agarraram imediatamente a oportunidade quando foram convidados para almoçar na casa de um vizinho.

Mas, mais tarde, seus supervisores os acusaram de compartilhar uma refeição com um membro da oposição venezuelana. “Levaram nossos celulares e nossos passaportes. Praticamente tiraram tudo para que não pudéssemos nos comunicar”, conta Pérez, um especialistas em reabilitação de 50 anos. “Sabíamos que encerrariam nossa missão e nos mandariam de volta a Cuba, então decidimos fugir para a Colômbia.”

Nesta florescente capital, eles aguardavam uma passagem rápida e segura para os Estados Unidos graças ao Programa de Liberdade Condicional para Profissionais Médicos cubanos, de 2006, criado especialmente para os trabalhadores da saúde da ilha. Mas, seis meses mais tarde, Pérez e seus colegas ainda aguardam uma resposta da embaixada americana. Seu dinheiro acabou e eles passam os dias jogando baralho numa casa abarrotada de gente, outros cubanos também presos no limbo.

Exilados aqui, afirmam que foram registrados cerca de 250 trabalhadores cubanos da saúde em Bogotá à espera de ir para os EUA. A maioria acredita que seu caso será resolvido dentro de 30 a 90 dias, mas alguns chegam a esperar sete meses por uma resposta, ou simplesmente são recusados.

Os jornais Miami Herald e El Nuevo Herald visitaram cinco casas onde dezenas desses trabalhadores vivem amontoados em espaços mínimos. Esses homens e mulheres são o rosto da ajuda internacional de Cuba. A ilha começou enviando brigadas médicas ao exterior em 1963. Desde então, cerca de 132 mil médicos trabalharam no exterior, segundo um artigo de 2014 do jornal oficial Granma. Atualmente, são mais de 50 mil.

Os governos pagam à ilha comunista pelo envio dos médicos, que deste modo se tornam uma importante fonte de receitas. É provável que em nenhum lugar o programa seja mais vital do que na Venezuela, que em 2003 criou o programa Barrio Adentro - centros de assistência médica com pessoal especializado cubano.

Em troca, a Venezuela envia petróleo bruto e dinheiro vivo para Cuba. No período de 2003 a 2013, a estatal petrolífera PDVSA injetou US$ 22,4 bilhões no programa. O ministro da Saúde da Venezuela, Francisco Armada, disse à televisão estatal VTV que há mais de 10 mil profissionais de saúde cubanos na Venezuela e, desde 2003, eles deram 617 milhões de consultas gratuitas, salvando mais de 1 milhão de vidas.

Mas muitos profissionais se queixam de que, ao chegar à Venezuela, foram tratados como escravos.

Discel Rodríguez, um enfermeiro de 42 anos, disse que foi obrigado a morar com cinco outros médicos num espaço confinado. Eles tinham de obedecer ao toque de recolher às 18 horas e eram desencorajados a fazer amigos na comunidade. “Pelo menos em Cuba podíamos morar numa casa com as pessoas sob os nossos cuidados”, disse. “A Venezuela foi uma punição, uma prisão.”

Quando a escassez de alimentos se tornou um problema, os médicos do programa trouxeram feijão, alho e artigos de higiene pessoal da ilha, contou.

A criminalidade na Venezuela é muito elevada. Um dos seus supervisores foi assaltado por dois jovens de bicicleta que apontaram uma arma para ele. “Fiquei furioso porque via velhinhas sendo assaltadas”, afirmou. “A Venezuela é um país péssimo.”

Rodríguez fugiu para a Colômbia no início do ano, com US$ 600 no bolso, na esperança de conseguir sobreviver por um mês ou dois enquanto pedia um visto para os EUA. Cinco meses mais tarde, ele ainda espera uma resposta.

“Tive de vender o computador de meus filhos (em Cuba) e a televisão para pagar o aluguel de US$ 150 mensais. Se pudéssemos trabalhar ou fazer alguma coisa enquanto esperamos, a vida seria um pouco melhor. Mas neste momento, as coisas são muito difíceis.”

Questionado a respeito da demora nas respostas, o Departamento de Estado americano repassou as perguntas ao Serviço de Imigração e Cidadania dos EUA. A agencia informou que não podia responder de imediato a uma série de perguntas.

Para alguns dos médicos que se encontram na Colômbia a recente aproximação entre Cuba e os EUA pode ser parte do problema. Eles suspeitam de que Cuba esteja exigindo o fim do programa criado pelos EUA, o qual, segundo Havana, é responsável pela fuga de cérebros.

Os profissionais que trabalham no exterior recebem um salário modesto, mas a maior parte dele fica retida em Cuba. Quando eles são enviados para casa mais cedo não podem receber nem suas modestas economias. 

“Estamos enfrentando uma situação extremamente difícil aqui na Colômbia”, queixou-se Pérez. “E tudo porque fomos almoçar.” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

JIM WYSS É JORNALISTA

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