Médicos e enfermeiros ajudaram CIA a torturar presos

Relatório mostra que profissionais de saúde auxiliavam agentes do governo americano em interrogatórios violentos

FERNANDA SIMAS, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2013 | 02h08

Um relatório produzido em parceria entre a Open Society Foundations e o Institute on Medicine as a Profession, nos EUA, em novembro, mostrou mais um episódio controvertido da guerra ao terror. Segundo o documento Ethics Abandoned ("Ética abandonada", em tradução literal), médicos e outros profissionais da saúde acobertaram e até auxiliaram práticas de tortura em Guantánamo e em outras prisões da CIA.

"Depois do 11 de Setembro, o Departamento de Defesa e a CIA exigiram que médicos e psicólogos desenvolvessem métodos de tortura para conseguir informações dos presos. Eles adotaram uma rotina de interrogatório que envolvia alimentação forçada e deixar os interrogados presos em uma cadeira. A obrigação desses profissionais no tratamento de seus pacientes foi deixada de lado", diz Leonard Rubenstein, jurista na Universidade Johns Hopkins e um dos autores do relatório.

Segundo o documento, os médicos auxiliaram militares em "interrogatórios cruéis e degradantes" e ajudaram a implementar práticas de isolamento que deixavam os detidos desorientados e ansiosos. Os profissionais de saúde participaram da aplicação de métodos de afogamento e alimentação forçada de presos em greve de fome.

A equipe analisou durante dois anos documentos públicos, informações de advogados e de grupos de direitos humanos e documentos de instituições como a Cruz Vermelha. Os autores não conversaram com médicos que atuaram nas prisões citadas. "Não temos permissão para falar com eles. Um médico militar e um enfermeiro, porém, estavam no grupo que elaborou o relatório", explica Rubenstein.

Os casos de abusos por parte de militares, espiões e outros funcionários do governo americano nessas prisões já eram discutidos, mas não se tinha conhecimento do envolvimento de médicos e enfermeiros.

Investigação. Rubenstein afirma que a maioria dos casos de abuso foi relatada em Guantánamo e em prisões da CIA. Para ele, os métodos de tortura diminuíram, mas ainda ocorrem. "O Departamento de Defesa parou de usar a maioria dos métodos e o governo Obama tem uma comissão para rever essas práticas, mas ainda há a alimentação forçada." A CIA não mantém mais detentos sob sua custódia, segundo relatos oficiais. Rubenstein espera que o governo americano investigue as denúncias a partir do relatório.

"Nós pedimos que isso seja investigado, é muito importante." A CIA nega as acusações. O porta-voz da agência Dean Boyd, em entrevista a agências internacionais, afirma que o relatório tem "conclusões erradas" e enfatiza que o programa de detenção e interrogatório da CIA foi encerrado com o presidente Obama, em 2009.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.