Médicos Sem Fronteira mantêm hospital clandestino na Síria

ONG com sede na França instalou-se no norte do país a contragosto de Damasco e, em 2 meses, já fez 300 cirurgias

PARIS, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2012 | 03h04

A ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF), com sede em Paris, revelou ontem ter montado clandestinamente um hospital fixo no norte da Síria. Em dois meses, médicos sírios e estrangeiros que trabalham no local realizaram 300 cirurgias, atendendo tanto insurgentes quanto soldados do ditador Bashar Assad.

As informações foram trazidas a público ontem, durante uma entrevista coletiva na sede da organização, em Paris. Quatro dos médicos envolvidos no projeto falaram sobre a montagem do hospital, o trabalho clandestino e os problemas de segurança, além da dificuldade em atender todos.

"Hoje se completam dois meses que o projeto foi montado, em uma parceria com uma associação de médicos sírios", explicou o diretor-geral da MSF, Felipe Ribeiro. A equipe da ONG trabalha com cerca de 50 profissionais de saúde locais - como médicos, enfermeiros, seguranças e intérpretes.

O hospital fica em uma cidade do norte da Síria, em uma área atualmente controlada pelos rebeldes. Ainda assim, as condições de segurança são problemáticas, o que dificulta a chegada de pacientes. Postos de controle - tanto dos militares quanto dos rebeldes -, bombardeios e até problemas cotidianos provocados pela guerra, como a falta de alimentos e de combustível, têm prejudicado o trabalho.

O hospital conta hoje com 12 leitos, mas pode chegar a 30 em boas condições, segundo o responsável, o cirurgião Brian Moller. "Informamos oficialmente desde o início às autoridades sírias que estávamos no país. Eles não ficaram muito satisfeitos e nos disseram que entramos ilegalmente", disse Ribeiro. "Precisamos que os dois lados do conflito nos facilitem o acesso e nos deixem tratar os pacientes. Não estamos satisfazendo as necessidades."

Sinais da violência. Para os médicos, a clandestinidade é um fator a mais de problema. "Os pacientes que tratamos têm na maior parte dos casos ferimentos típicos de um contexto de guerra: por disparos, explosões de obuses e de granadas de morteiros", explicou a cirurgiã polonesa Anna Nowak, que chegou na segunda-feira da Síria e está pronta para retornar.

"Minha maior dificuldade é saber que tenho diante de mim pacientes que, se pudesse ter operado um ou dois dias antes, poderia ter salvado. Hoje faço o que posso, mas as chances são pequenas", afirma a médica.

A cirurgiã dinamarquesa Katherine Holte estima que 60% dos pacientes atendidos tinham ferimentos causados por explosões e 40% por disparos. / A. N.

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