Medida de Maduro ameaça produção de farinha de milho

Fabricante diz que reajuste do cereal, autorizado pelo governo, força alta no preço da matéria-prima da arepa, alimento-símbolo do país

CARACAS, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2014 | 02h01

A empresa Polar - maior conglomerado privado na Venezuela, do setor alimentício - ameaça suspender a produção de Harina PAN, a farinha de milho com a qual os venezuelanos preparam alguns dos principais componentes de sua dieta. O aumento do preço do milho outorgado pelo governo, de 218%, segundo a diretoria da companhia, "obriga a uma urgente adequação do preço" do produto.

Uma eventual escassez da Harina PAN ou uma elevação no preço do produto, cuja patente é de propriedade da Polar, deve provocar ainda mais insatisfação da população venezuelana contra o governo de Nicolás Maduro. "Após o aumento de 218% no custo do milho decretado pelo governo, não é possível continuar com a produção de Harina PAN", tuitou a Polar às 20h30 da segunda-feira na Venezuela (22 horas em Brasília).

A arepa, um tipo de pão produzido com essa farinha, é popularíssima nas mesas de venezuelanos de todos os estratos sociais. É comida com manteiga, carne e queijo, por exemplo, compondo e acompanhando refeições. Estabelecimentos de alimentação batizados de "areperas" são comuns nas principais cidades da Venezuela. O desabastecimento de alimentos e itens básicos de consumo, juntamente com a escassez de medicamentos e insumos médicos, é apontado como um dos principais elementos de insatisfação popular no país. O governo planeja uma elevação no preço da gasolina, que custa US$ 0,02 o litro em razão de subsídios.

"O aumento, publicado pela Superintendência para a Defesa dos Direitos Socioeconômicos, obriga a uma urgente adequação do preço da farinha pré-cozida de milho para que a produção da agroindústria seja sustentável", afirmou o diretor da Alimentos Polar, Pablo Baraybar, no comunicado emitido na segunda-feira.

O texto do conglomerado alimentício ressaltou que "o preço da matéria-prima para a elaboração da farinha de milho aumentou de 2,20 bolívares para 7 bolívares por quilo". "Um aumento dessa proporção (...) exige que o preço do produto final seja adequado de tal maneira que permita a compra da colheita nacional e garanta que a operação de nossas fábricas seja sustentável", afirmou Baraybar no comunicado.

Para manter sua produção, a Polar afirmou que teria de aumentar o preço do quilo de Harina PAN para 24,50 bolívares - atualmente, os venezuelanos pagam 12,40 bolívares pelo quilo do produto.

A empresa alega que, diante do aumento no preço da matéria-prima, nem mesmo os custos de produção da farinha serão cobertos se não houver um aumento no preço final.

Ontem, a Polar mostrou-se otimista em relação a uma afirmação do vice-presidente para Soberania Alimentar, Yván Gil, de que as estruturas de custos de vários produtos, entre eles, a farinha de milho, serão revistas. Gil qualificou a afirmação da Polar de um "mal-entendido", após se reunir com representantes da empresa. O vice-presidente disse que a "Polar tem 52 dias de estoque da matéria-prima". "Está garantido o abastecimento pleno de farinha."

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