Medidas de Chávez castigam Caracas

Ações do líder venezuelano contra oposição deteriora a capital do país

Ruth Costas, CARACAS, O Estadao de S.Paulo

18 de março de 2009 | 00h00

Lixo acumulado nas esquinas, trânsito caótico e uma taxa de homicídio quatro vezes maior que a de São Paulo. Caracas nunca foi conhecida pela qualidade de vida, mas a recente ofensiva do governo venezuelano para esvaziar o poder de prefeitos e governadores deve piorar a situação - frustrando a esperança da população da capital de reverter o quadro de deterioração que marcou sua trajetória nos últimos anos. Ouça relato de Ruth Costas sobre o embate político em Caracas Depois das eleições regionais de novembro, Caracas foi o primeiro alvo das medidas centralizadoras do presidente Hugo Chávez, que, no domingo, ordenou a ocupação dos portos controlados pela oposição e ainda promete tomar estradas e aeroportos. Inconformado com a vitória do opositor Antonio Ledezma, Chávez baixou uma série de decretos e medidas que passam para o governo central o controle de 93 escolas, 30 hospitais, a Ávila TV e um grande espaço cultural - o Nuevo Circo. Antes das eleições, o comando da Polícia Metropolitana de Caracas também já tinha sido transferido para o Ministério do Interior e, recentemente, um projeto de Ledezma para instituir um rodízio de veículos não pôde ser aplicado porque aliados do presidente entraram com recursos nos tribunais."Eu votei em candidatos chavistas, mas nem por isso acho certo o presidente impedir que governadores e prefeitos eleitos de forma legítima possam fazer seu trabalho. Trata-se de um desrespeito com o resultado das urnas", disse o aposentado José Bonilla, de 70 anos, diante do edifício que até este ano abrigava a prefeitura de Caracas. O prédio foi ocupado em janeiro por chavistas e está fechado até hoje. Sua fachada foi destruída e as paredes, pichadas. "Estamos todos fartos dessas disputas políticas", diz a auxiliar administrativa Inés Aronguren, de 59 anos. "Todos nós - chavistas e não-chavistas - queríamos que oposição e governo parassem de brigar e cooperassem para recolher o lixo, combater a violência e melhorar a vida da população, que só tende a piorar com essa crise econômica."Chávez começou a tomar medidas para centralizar o poder após as eleições regionais. Líderes opositores venceram nas duas principais cidades (Caracas e Maracaibo) e em cinco Estados que concentram 45% da população e 70% das atividades econômicas venezuelanas (Zulia, Carabobo, Táchira, Nueva Esparta e Miranda).Com isso, conseguiram espaço para crescer no cenário político venezuelano e mostrar um modelo de gestão alternativo ao "socialismo bolivariano". "Tirar as atribuições dos governadores foi a resposta do presidente a essa nova ameaça", disse o cientista político José Molina, da Universidade de Zulia. Ele explica que as ações se tornaram mais radicais após Chávez conseguir no referendo de fevereiro a possibilidade de reeleger-se indefinidamente.Além de Caracas, outros governos locais opositores foram afetados. O Estado de Miranda, onde está a capital, perdeu 18 hospitais e ambulatórios. Zulia, Nueva Esparta e Carabobo tiveram seus portos ocupados por militares no domingo, antes mesmo que a reforma na Lei de Descentralização fosse sancionada ontem por Chávez. Os governadores e prefeitos de oposição pediram na segunda-feira ao Supremo que suspenda a ordem para que o Exército tome controle dos três principais portos administrados por opositores. "A gestão dos hospitais, escolas e vias de circulação de pessoas e mercadorias foi passada para os governos locais nos anos 80 como forma de dar mais eficiência a esses serviços", diz Molina. "Com a centralização, devemos retroceder esse avanço - o que terá um impacto significativo e imediato na vida da população."Ontem, Chávez anunciou que criará um Sistema Integrado de Polícia Nacional, que supervisionará as polícias estaduais e municipais, e advertiu que em breve tomará o controle do aeroporto La Chinita, em Maracaibo. ?TOMADA? DA CAPITAL Educação - Cerca de 90 escolas de Caracas passaram ao poder central Saúde - Governo federal retirou do poder regional pelo menos 30 hospitais da capital Segurança - Antes das últimas eleições regionais, Chávez submeteu a Polícia Metropolitana de Caracas diretamente ao Ministério do InteriorInformação e Cultura - Foram transferidos também ao poder federal a emissora Ávila TV e o espaço de entretenimento Nuevo Circo

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