Miguel Gutiérrez/EFE
Miguel Gutiérrez/EFE

Medidas de Maduro contra a inflação incluem venda de imóveis alugados

Governo venezuelano obriga proprietários de casas alugadas há mais de 20 anos a vendê-las, oferecendo-as primeiro aos inquilinos

Denise Chrispim Marin, Enviada Especial / Caracas, O Estado de S. Paulo

31 de março de 2014 | 21h28

CARACAS - Pressionado por sua própria base eleitoral, o governo de Nicolás Maduro adotou medidas para conter a inflação e aumentar a oferta de alimentos, uma forma de desestimular os protestos da oposição. Na área monetária, o governo elevou na segunda-feira, 31, os depósitos compulsórios de feitos por instituições bancárias no Banco Central. Na habitacional, ordenou a donos de edifícios que alugam apartamentos há mais de 20 anos a vendê-los.

As iniciativas têm o claro objetivo de reduzir a inflação anualizada, que alcançou 57,3% em fevereiro. A cesta básica de alimentos, bens e serviços básicos custou 12,3 mil bolívares (US$ 1.900 mil pelo câmbio oficial e US$ 215,8 pelo paralelo) no mesmo mês. Essa cifra representa um aumento de 4,5 mil bolívares - mais do que um salário mínimo - em apenas um ano. A variação de preços de aluguel foi de 5,6% e a de alimentos, 2,9%, segundo o Centro de Documentação e Análise para os Trabalhadores (Cenda).

O aumento do depósito compulsório de 20,5%, em dezembro passado, para 21,5%, a partir de terça-feira, 1, foi a medida monetária alternativa à elevação da taxa de juros para frear o consumo no país. Com menos dinheiro disponível para empréstimos, os bancos tenderão a aumentar o custo cobrado dos tomadores de crédito. No caso da pressão sobre os donos de edifícios de aluguel, o governo tenta quebrar o poder do setor de definir os preços e reduzir a demanda.

A Superintendência Nacional de Arrendamento de Moradia informou que a oferta dos imóveis para a venda - primeiro, ao inquilino - deve começar até 28 de maio. A operação de venda terá de seguir limites de ganhos da Lei de Preço Justo e, assim, não terá base em condições de mercado. Ao desrespeitar essa nova norma, o proprietário está sujeito a multas a partir de 256 mil bolívares (US$ 40,6 mil, pelo câmbio oficial, e US$ 4.500, pelo paralelo).

O governo anunciou ainda o desembarque de alimentos importados no último fim de semana, como meio de conter a especulação de preços no país e acalmar a população mais afetada pelo desabastecimento. Foram trazidas do Brasil 555 toneladas de carne congelada sem osso e 6.500 toneladas da Colômbia, 20 toneladas de arroz e 20 mil toneladas de trigo do Canadá, 24 toneladas de soja dos EUA e 2.500 toneladas de feijão preto da China, além de mais de 2 mil toneladas de produtos de higiene pessoal e 303 toneladas de papel higiênico.

A mais recente pesquisa de opinião Venebarômetro, coordenada pelo cientista político Edgard Gutiérrez, indica que 71,6% dos venezuelanos avaliam a situação econômica do país como negativa. Nos supermercados e pequenos estabelecimentos comerciais venezuelanos, filas ainda se formavam até esta segunda para a compra de bens básicos escassos, como a farinha de milho, o óleo vegetal, o açúcar e o café. Em seu mercadinho na favela 23 de Enero, a mais antiga e engajada no chavismo em Caracas, Arlen Valero (foto) diz receber críticas diárias de seus clientes pela falta desses produtos. Ela diz entrar nas mesmas filas com seus clientes para não faltar alimento em sua casa.

A alternativa às filas seriam as bancas de rua onde, a 100 metros de sua loja, camelôs revendem os mesmos itens a preços sextuplicados. O congelamento de preços imposto pelo governo não é cumprido. "Eu não vou comprar mais caro nos supermercados para revender ainda mais caro aqui na minha loja. A minha licença de comerciante não me permite", afirmou ela, que herdou a loja de seu pai.

O faturamento mensal de seu mercado varia de 500 mil a 800 mil bolívares - US$ 8.800 a US$ 14 mil, pelo câmbio paralelo. Há dois anos, Arlen agregou o serviço de depósitos e saques do Banco de Venezuela, fator que aumentou a circulação de potenciais clientes pelo seu minimercado. O modelo foi implementado na Venezuela a partir de cooperação com a Caixa Econômica Federal, do Brasil.

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