Medidas de Maduro contra escassez falham

Desabastecimento atinge 29,4% dos produtos em março, segundo Banco Central da Venezuela, apesar de tentativa estatal de pagar fornecedores

CARACAS, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2014 | 02h05

Dados do Banco Central da Venezuela demonstram que a escassez de produtos se agravou no país este ano, apesar de medidas do governo de Nicolás Maduro para conter a crise de abastecimento, uma das principais razões para protestos que pedem há três meses sua deposição. Em março, o índice chegou a 29,4%, 1,4 ponto porcentual acima do registrado em janeiro.

Os resultados de medidas como a oferta de alimentos subsidiados em mercados populares, o congelamento de preços e os programas sociais do chavismo têm sido corroídos pela crise econômica, segundo as avaliações mais recentes feitas por economistas venezuelanos. A última medida, o pagamento de 30% da dívida do governo aos fornecedores, não teve impacto no curto prazo.

O relatório do banco indica "sérios problemas" na reposição de 19 produtos de consumo básico. O azeite feito de milho despareceu das prateleiras, assim como o produzido à base de girassol. A farinha de trigo é o segundo produto com mais alto índice de falta, 99,4% em março, 7,7 pontos porcentuais acima do registrado em fevereiro. Todos tipos de leite também sofrem algum tipo de limitação grave na distribuição. No leite em pó, por exemplo, o índice de desabastecimento foi de 90,25%. A variedade integral está ausente em 98,8% dos casos. Desde novembro, esses produtos registraram índices de escassez de 80% a 100%.

No topo da lista que mede o desabastecimento ainda estão o café (94,2%), o açúcar (90%) e a farinha de milho (89,3%), esta um produto essencial na alimentação venezuelana.

Crise alimentar. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), a inflação dos alimentos da Venezuela já é a maior da América Latina, bem acima do segundo país da lista, o Uruguai, onde o preço da comida, nos últimos 12 meses, subiu 10,4%.

Ao longo dos últimos anos, os alimentos têm pesado mais na cesta de consumo. Em 1997, correspondiam a 22,9% dos gastos médios. Em 2007, equivaliam a 29,1%. Hoje, as despesas com alimentação respondem por 37% do que desembolsam as famílias, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas (INE).

Ainda de acordo com o instituto, as condições econômicas atuais continuam a permitir que 94,6% da população venezuelana faça pelo menos três refeições por dia. Segundo analistas, a base desse esforço para garantir o mínimo de segurança alimentar está ameaçada.

A escassez de produtos de higiene também se agravou no primeiro trimestre do ano, segundo o Banco Central da Venezuela. O papel higiênico, que se tornou símbolo em protestos contra o desabastecimento, atingiu índice de escassez de 87%, o mais elevado desde outubro.

Feito na Venezuela pela papeleira Paveca, o produto, como quase tudo no país, necessita de insumos importados. A matéria-prima vem do Chile. No fim do ano passado, depois de uma grave escassez, o governo concedeu em regime de urgência dólares para a empresa aumentar a produção - o aporte de US$ 1,5 milhão permitiu um incremento de 10 milhões de rolos por mês na produção.

A distorção cambial provocada pela escassez de dólares, a falta de controle do câmbio paralelo e o congelamento de preços tornaram os produtos venezuelanos baratos para quem vem de fora. O governo estima que cerca de 40% da produção está sendo contrabandeada para a Colômbia.

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