Medidas de Maduro para economia convidam a voo cego

Os problemas enfrentados pelas empresas aéreas internacionais na Venezuela mostram como medidas econômicas equivocadas podem arruinar um país, mesmo um abençoado com a maior reserva de petróleo do mundo.

ANÁLISE: Raúl Gallegos / BLOOMBERG, O Estado de S. Paulo

29 de março de 2014 | 00h41

As empresas aéreas têm mais de US$ 3,5 bilhões presos na Venezuela em razão das restritivas normas de conversão cambial que as impedem de repatriar o dinheiro. Algumas não conseguiram dólares no ano passado, de acordo com a associação das companhias aéreas, a Alav.

Essas restrições dificultam a compra de peças de aviões de fornecedores internacionais e o pagamento dos custos operacionais. O que explica por que algumas companhias, como a Air Canada, vêm deixando de voar para a Venezuela apesar das recentes ameaças do presidente Nicolás Maduro, de que as empresas que o fizerem serão punidas.

"A empresa que deixar o país não retornará enquanto estivermos no poder", afirmou Maduro no início deste mês.

O problema dessa posição radical do presidente é que o governo que ele herdou de Hugo Chávez fomentou a demanda excessiva por passagens de avião, diante da oferta de dólar barato para os venezuelanos gastarem no exterior e a escassez de dólares que vem castigando as companhias aéreas.

A imposição de controles monetários indefinidos para impedir a fuga de capital foi o primeiro erro. Os venezuelanos aprenderam a converter suas poupanças em bolívar para dólares para se protegerem contra a inflação galopante e as desvalorizações provocadas pelos gastos descontrolados do governo. Controles não mudam tal comportamento, mas tendem a piora-lo.

O resultado é um sistema cambial muito complexo. O país tem quatro taxas de câmbio vigentes.

A taxa oficial é de 6,30 bolívares por dólar, mas somente importadores de produtos básicos e medicamentos podem comprar dólar a um valor tão baixo. No outro extremo, um dólar no mercado paralelo custa nove vezes mais.

Essa diferença fomenta a especulação. Muitas pessoas compram bilhetes de avião em bolívares fingindo que vão viajar e assim podem comprar dólares do governo a um preço muito menor para gastos no exterior. Em seguida elas se desfazem das passagens e vendem os dólares no mercado paralelo local com lucro. A especulação com a moeda é um dos negócios mais lucrativos na Venezuela, e as viagens aéreas estão no centro dela.

Mas as companhias aéreas também entraram no jogo. No ano passado muitas aumentaram o preço dos bilhetes em 40% a título de cobertura de prejuízos. Elas agem assim no caso do governo desvalorizar a moeda, como ocorreu cinco vezes na última década e novamente em fevereiro, ou limitar o câmbio disponível para as empresas de aviação, como fez no ano passado. Esta prática aumenta o volume de dólares que as empresas aéreas no final cobram do Estado quando querem converter os bolívares acumulados com as vendas de passagens.

A escassez de dólares é tão grave que a Venezuela agora exige que as empresas paguem pelos serviços aeroportuários, como espaço no hangar e tarifas de pouso, usando a moeda americana e não moeda local.

Se a história servir como indicação, as empresas aéreas deverão ter perdas. Em 2010 elas contabilizaram um prejuízo de 17% em receitas ao reduzirem a taxa de câmbio para troca dos seus bolívares. Na época resgataram US$ 260 milhões em vendas de bilhetes, uma fração dos bilhões que agora estão em jogo.

A Venezuela luta para dirimir as consequências das medidas adotadas.

Lançou um sistema de leilão de dólares na segunda-feira com a cotação do bolívar próxima da do dólar no mercado paralelo. E tornou mais difícil para os venezuelanos driblarem o sistema e venderem dólares baratos localmente.

Mas quanto mais regras são criadas, mais lacunas as pessoas procurarão encontrar e mais especulação existirá.

Somente políticas econômicas sustentadas por longos períodos permitindo que as forças de mercado estabeleçam a taxa cambial devolverá a confiança das pessoas no bolívar. Se o desaparecimento das empresas aéreas da Venezuela não provar esta verdade para o governo, nada o fará. 

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

RAÚL GALLEGOS É JORNALISTA

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