Medo chega até cidade beduína de Israel

Moradores de Lahat, no sul do país, improvisam para escapar de ataques

ROBERTO SIMON , ENVIADO ESPECIAL / LAHAT, ISRAEL, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2012 | 02h06

Em uma das mais de 50 vezes em que as sirenes avisaram sobre foguetes do Hamas, na última semana, Sleiman Abu Mdegam correu descalço para a mesquita. Em outra, o beduíno de 22 anos entrou debaixo da mesa da mercearia de seu pai. Ontem, desistiu e saiu na rua para tentar ver onde o projétil disparado da Faixa de Gaza pararia.

A maior cidade beduína de Israel, Lahat, no sul do país, não é como suas vizinhas de maioria judaica, onde há bunkers modernos dentro das casas ou em cada esquina e a prefeitura conta com complexos e eficientes sistemas de apoio aos moradores.

Sleiman diz que só conhece dois abrigos públicos em Lahat, onde vivem cerca de 50 mil pessoas. O escritório do governo israelense, que cuida da proteção de civis, afirma ter construído quatro.

"Acho que na maioria das vezes o (sistema antimíssil) Domo de Ferro intercepta os foguetes. Mas, mesmo assim, tenho medo", admite ele ao Estado.

Enquanto Sleiman se explica, Jamal Wal, que vende shraak - espécie de pão sírio maior e mais fino - na frente da mercearia, balança a cabeça para cima e para baixo em sinal de endosso. Quando escuta as sirenes, Wal sai correndo de sua barraca de lona e entra na loja de Sleiman.

Ele lembra que, uma vez, os dois amigos quase bateram de frente: Sleiman fugindo da mercearia em busca de abrigo e Wal entrando para se esconder no fundo do lugar. "Os foguetes são perigosos e 'cegos', não sabem diferenciar judeu de muçulmano, gente boa de gente ruim", diz.

Trégua. Os beduínos eram um povo nômade que vagava entre a região do Deserto de Neguev, atualmente Israel, e a Península do Sinai, no Egito. No século 20, com a imposição de fronteiras mais rígidas na região e a criação de Israel, eles se tornaram sedentários.

Os que ficaram no território israelense ganharam cidadania plena e estima-se que entre 40% e 50% dos jovens da comunidade sirvam nas Forças Armadas, embora eles não sejam obrigados como os demais habitantes (à exceção dos árabes-israelenses).

Cercada por vilarejos menores, Lahat é a única cidade beduína. Ela é visivelmente muito mais pobre do que os demais centros urbanos do sul de Israel, como Ashkelon, Sderot e Ber Sheva. O horizonte em Lahat é um mar de sobrados cinza com alguns minaretes despontado entre as casas - os beduínos são muçulmanos.

Sabah Abuzaid, funcionária de uma farmácia da cidade, reclama que Lahat "foi esquecida" por Israel na linha de tiro do Hamas. Ela tem quatro filhos e pensa em levá-los para Ber Sheva se os foguetes continuarem a cair.

"Torço para que essa trégua seja assinada logo. Não só em razão da nossa situação, mas porque é muito triste ver civis palestinos morrendo em Gaza", afirma Sabah, que usa o véu islâmico sobre todo o cabelo.

Seu colega Katani Mohamed diz que não tem medo dos foguetes do Hamas e, mesmo se tivesse um abrigo a pouca distância, não buscaria proteção ao escutar as sirenes. "Eu acredito em destino, não em alarmes", disse. Sabahi discorda. "Eu prefiro colocar meus filhos em um abrigo."

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