Facundo Arrizabalaga / EFE
Facundo Arrizabalaga / EFE

‘Medo de invasão está enraizado na psique britânica’, diz professor

Sociólogo britânico compara perda de soberania para a UE com ameaça nazista na 2ª Guerra

Entrevista com

Jon Stratton, sociólogo da University of South Austrália

Renata Tranches , O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2019 | 05h00

A ligação de Boris Johnson com Winston Churchill vai além da admiração. Segundo o sociólogo britânico Jon Stratton, ela se traduz no modelo de liderança que o premiê projeta e numa inspiração na linguagem que pautou os discursos durante o temor de invasão nazista na 2.ª Guerra. A linguagem esteve na campanha do Brexit e foi objeto de estudo (The Language of Leaving: Brexit, the Second World War and Cultural Trauma) de Stratton, professor da University of South Australia. 

Johnson nunca escondeu a admiração por Churchill. No governo, como isso se traduz? 

Há muitos Churchills. Fazendo uma ligação com o Brexit, os dois mais importantes são o Churchill herói de guerra e o Churchill pós-guerra defensor da integridade europeia. O herói de guerra sempre foi o que teve maior proeminência na Inglaterra. Essa é a versão que Johnson admira. Ele vê Churchill como um homem forte, carismático que liderou os britânicos pelos tempos de crise. Johnson, como muitos outros britânicos, acredita que por ter vencido a 2.ª Guerra, o Reino Unido emergiu como o país mais poderoso da Europa. 

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O que o sr. acha? 

Muitos britânicos esquecem ou não sabem que o Reino Unido após a guerra ficou com uma dívida gigantesca e precisava renovar sua base industrial. Johnson se inspira no Churchill líder de guerra, que foi capaz de liderar os britânicos para um mundo novo e melhor. É assim que Johnson gostaria de ser visto, como um líder capaz de superar os obstáculos para chegar ao Brexit e liderar o país na retomada de sua soberania e poder. Johnson e outros acreditam que o Reino Unido pode substituir o comércio dentro da União Europeia com o comércio dentro da Commonwealth. Mas quase todas essas atitudes e expectativas são erradas. 

Em seu estudo, o sr. aborda a linguagem da campanha pelo Brexit. Como ela trabalhou os medos britânicos na 2ª Guerra? 

Johnson, Nigel Farage e outros proeminentes da campanha pelo Brexit invocaram a 2.ª Guerra várias vezes. A UE foi retratada como se estivesse fazendo o que os nazistas queriam fazer, que era destruir a soberania britânica e submeter o país ao controle estrangeiro. Isso foi visto como um controle alemão disfarçado de europeu. Durante a campanha, e até hoje, Johnson e outros que querem o Brexit jogam com a ideia de que o país está sob ameaça, assim como na 2.ª Guerra. 

Esse medo ainda existe? 

Esse medo está enraizado na psique britânica. Um exemplo é que os britânicos não se veem como europeus. No Reino Unido, se alguém resolve sair de viagem, diz que vai para o “continente” ou para a “Europa”. Fazer parte de uma UE é entendido como um sacrifício que leva o país a perder sua soberania. Para muitos, isso se manifesta na inabilidade da Inglaterra de controlar a imigração. Os britânicos temem estar sendo “inundados” (expressão de Margaret Thatcher) por pessoas da UE. Isso é percebido como outra forma de invasão. Toda a campanha do Brexit foi expressada nesses termos e é assim que metade da população percebe a relação com a Europa.

Como Johnson usa os argumentos de Churchill para falar sobre a soberania da Inglaterra? 

Churchill argumentou em um famoso discurso que os nazistas estavam prestes a invadir o Reino Unido: “Lutaremos contra eles nos mares e nos oceanos, lutaremos contra eles com crescente confiança e força no ar, defenderemos nossa ilha, qualquer que seja o custo. Vamos lutar nas praias, vamos lutar nas pistas de pouso, nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas. Nunca nos renderemos”. Esse discurso já foi lido ou ouvido por cada britânico. Conhecê-lo faz parte de crescer inglês. Isso resume a contínua atitude de muitos na Inglaterra. Quando as pessoas falam sobre o espírito “churchilliano" ou o "espírito bulldog" é a atitude que ele expressou naquele discurso. É uma atitude desafiadora para suportar um ataque estrangeiro, uma invasão a qualquer custo. Essa é a ideia, não importa a que custo em termos econômicos, deixar a UE é melhor do que permanecer nela.

Esse argumento pode ser comparado a outros discursos nacionalistas pelo mundo?

Há um crescimento geral do nacionalismo pelo mundo. Isso é uma resposta popular à globalização. O nacionalismo se manifesta de formas diferentes em vários países, mas têm aspectos comuns. Um deles é a reivindicação de que a nação tem uma população homogênea e a homogeneidade está sob ameaça da imigração, dos refugiados. Na Inglaterra, isso é expressado com o emprego da palavra “invasão”. Não se reconhece que a Inglaterra tem uma população de diversas origens. Atualmente, a preocupação é com os poloneses. Nos anos 60, era com os imigrantes de Índia, Bangladesh, Paquistão e Caribe. O atual nacionalismo tem aumentado o racismo contra esses grupos também. A preocupação com a soberania é uma constante na Inglaterra. A 2.ª Guerra reforçou isso.

Por que então os britânicos aceitaram entrar na UE? 

Os britânicos na época estavam tão assustados pelo impacto da 2.ª Guerra que a ideia de participar de uma Europa integrada parecia uma boa maneira de evitar um novo conflito. Então, valia a pena abrir mão de um pouco de soberania em troca de proteção. Na época, o argumento econômico parecida irrefutável. 

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O que aconteceu então no referendo de 1975 sobre o Mercado Comum?

Na época, os britânicos já faziam parte do Mercado Comum. No entanto, havia um grupo de conservadores poderosos e muitos no Partido Trabalhista como Jeremy Corbyn, atual líder do partido, que acreditavam que os britânicos deveriam permanecer independentes. O referendo foi visto como uma maneira de silenciar esses críticos. O pensamento de David Cameron foi muito parecido com esse em 2016. Ele estava errado. Tem havido um grande número de tentativas ao longo dos anos de renegociar os termos da filiação britânica no bloco. Mesmo em 1975, apenas 67% votaram para permanecer no Mercado Comum.

O sr. afirma que programas populares de TV na Inglaterra influenciaram o voto dos baby boomers em favor do Brexit. Por quê?

Basicamente, os programas que eu me refiro no artigo têm um tom nostálgico. Eles constroem a Inglaterra como um país rural, de vilarejos, onde há uma população homogênea com um forte senso de comunidade. Esses programas ajudaram a criar um pensamento entre as crianças baby boomers de um Reino Unido como um país mais simples e gentil, sem os problemas da decadência urbana, do multiculturalismo e da pobreza. Há o sentimento de que tudo o que está errado no Reino Unido foi causado pela entrada para a UE e deixar o bloco permitirá que o país retorne a esse tempo perdido, o que é um lixo completo, claro.

O que vai acontecer ao país? 

Só Deus sabe! O que está claro é que os líderes dos dois maiores partidos querem o Reino Unido fora da UE, ainda que por razões diferentes. Ao mesmo tempo, metade do país quer que permaneça na UE. A fratura é profunda e, em certo ponto, geracional. É preciso lembrar também que votar não é obrigatório na Inglaterra. Outro cenário possível é que a Escócia, a favor de permanecer na UE, pode tentar a independência se os britânicos deixarem o bloco.

O sr. acredita na possibilidade de um novo plebiscito? 

Isso pode acontecer. Desconfio que muitos jovens que não votaram, agora votariam pela permanência. Ao mesmo tempo, os partidários pela saída estão muito mais convictos em suas visões. De maneira geral, os que fazem campanha pelo Brexit não querem outro referendo. No entanto, uma eleição geral pode se tornar um mandato para um referendo. Está tudo uma bagunça e a principal preocupação é até que ponto a democracia britânica está sob ameaça. Como ficará o sistema político quando tudo isso acabar? Essa é a questão crucial. 

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