AP Photo/Bernat Armangue
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Medo do avanço da extrema direita marca fim de campanha na Espanha 

Pesquisas apontam disputa apertada entre forças de esquerda e de direita; forte polarização e fragmentação partidária tornam improvável que eleição espanhola de hoje, a quarta em apenas quatro anos, consiga romper o impasse político 

João Paulo Carvalho, Especial Para o Estado / Madri

10 de novembro de 2019 | 06h00

MADRI - Com um comício na Plaza Colón, centro de Madri, na sexta-feira, o partido de extrema direita Vox encerrou sua campanha para a eleição deste domingo, 10, na Espanha - a quarta em quatro anos. A direita radical deve dobrar sua representação parlamentar, segundo pesquisas. Por isso, o Partido Popular (PP), de centro-direita, e o Partido Socialista (PSOE) usaram os últimos comícios para mobilizar suas bases para tentar conter o avanço do Vox.

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O premiê socialista Pedro Sánchez fechou a campanha em Barcelona. “Precisamos frear a extrema direita no voto”, disse o líder do PSOE. Pablo Casado, do PP, encerrou a disputa na capital com um último apelo por unidade. “Nós, da centro-direita, temos de estar unidos. Não podemos fazer um gol contra”, afirmou o líder conservador.

PSOE e PP são os partidos mais tradicionais da Espanha e se alternaram no poder. No entanto, na reta final de campanha, em nenhum outro lugar a sensação de triunfo era maior do que na Plaza Colón, ao lado da multidão de eleitores de Santiago Abascal, líder do Vox.

Segundo as pesquisas, o partido sairá de 24 deputados para 52, tornado-se a terceira força de uma Parlamento de 350 cadeiras. A ascensão meteórica tem ligação direta com o discurso incisivo contra a independência da Catalunha. Durante os protestos que se multiplicaram por Barcelona, em outubro, Abascal defendeu que Sánchez acionasse o estado de exceção para controlar a violência.

Na sexta-feira, no centro de Madri, jovens eleitores do Vox seguravam bandeiras da Espanha e gritavam: “Comunistas, vão para casa! Viva a Espanha!”. “Este é o primeiro dia da nova revolução espanhola. O Vox dá hoje um grande salto rumo ao futuro, para fazer da Espanha um país justo e livre da esquerda. Somos a única força patriota deste país”, disse Abascal, que defendeu a suspensão imediata de todos os partidos separatistas da Espanha.

No fim do comício, uma bandeira espanhola de 50 metros de comprimento e 25 de largura (do tamanho de uma piscina olímpica) foi aberta pela multidão que se aglomerou em Colón. “Querem separar a Espanha. Eles preferem desintegrar nossa nação. Mas o Vox não vai deixar isso acontecer”, afirmou o enfermeiro José Antonio García Gómez, de 49 anos, eleitor de Abascal.

Apesar de o Vox ser a maior novidade na eleição de hoje, dificilmente as urnas romperão o impasse político na Espanha, cuja governabilidade mergulhou na instabilidade desde que o oligopólio bipartidário foi pulverizado, em 2015, com o surgimento de outras duas forças: o Podemos, da esquerda insatisfeita com o PSOE, e o Ciudadanos, de centristas descontentes com o PP.

Se com quatro partidos já era difícil formar uma maioria sozinho, com a ascensão do Vox então ficou improvável. Segundo as últimas pesquisas, PSOE e PP estão longe de conseguirem maioria absoluta (176 cadeiras) para governar sem coligações.

Quando são divididos em blocos, esquerda (PSOE e Podemos) e direita (PP, Ciudadanos e Vox) aparecem empatados, de acordo com pesquisas publicadas pelos jornais ABC, La Razón, 20 Minutos e El Mundo - a variação entre elas é mínima, dentro da margem de erro, ora favorecendo um lado, ora o outro.

Fragmentação

“A política espanhola está fragmentada. Há mais opções e o Vox tem agora força nacional. Os resultados são incertos”, afirma o professor de ciências políticas da Universidade de Santiago de Compostela, Miguel Anxo Bastos.

Muitos especialistas dizem acreditar que a única solução seria um acordo entre PSOE e PP. “Caso Sánchez (PSOE) necessite da abstenção de Casado (PP) para formar governo, ele cederia em troca de políticas mais duras contra a Catalunha, que é uma das principais bandeiras do PP. Seria um governo de abstenção, não de coligação”, afirma Jaime Pastor Verdú, professor de ciências políticas da Universidade Nacional de Madri. “A aliança evitaria mais uma eleição e ambos estariam abertos a debater temas como a crise econômica, que chegará à Espanha em 2020.”

Outra possibilidade é um pacto entre a esquerda e os partidos independentistas, estratégia que fracassou nas eleições de abril. Depois de meses de negociações, Sánchez e Iglesias, líder do Podemos, não chegaram a um acordo, o que obrigou a Espanha a realizar nova eleição.

Além do Vox, outro partido chama a atenção - embora sem a mesma perspectiva de crescimento: o Más País, do jovem Íñigo Errejón, de 35 anos. Ex-companheiro de Iglesias no Podemos, ele se apresenta pela primeira vez nas eleições defendendo pautas sociais.

O Más País vem se consolidando como o partido dos jovens. Uma de suas estratégias de campanha foi lançar um jogo para celulares chamado Harry Errejón e a Câmara dos Deputados, uma alusão ao filme Harry Potter e a Câmara Secreta (2002). No jogo, Errejón se transforma em Harry Potter e salva a Espanha de inúmeros perigos (em forma de obstáculos) que surgem pelo caminho.

Pesquisas mostram, porém, que o Más País conseguiria, no melhor dos cenários, apenas seis deputados. “O objetivo de Errejón é reduzir a influência do Podemos e ajudar o PSOE em um possível cenário de impasse político”, explica Anxo Bastos.

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