Medo do caos justificou impeachment relâmpago

Apesar de os esperados incidentes de violência não terem ocorrido, congressistas ainda usam o mesmo discurso que assustou os paraguaios

ROBERTO SIMON, ENVIADO ESPECIAL / ASSUNÇÃO, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2012 | 03h06

Entre congressistas paraguaios, o argumento para justificar a destituição relâmpago do presidente Fernando Lugo é sempre o mesmo: se o processo levasse mais tempo, "carperos" (sem-terra) e radicais esquerdistas marchariam sobre a capital e a violência seria inevitável. Mesmo após quatro dias de tranquilidade, esse discurso do medo ainda assusta paraguaios.

A única marcha de carperos que o Estado presenciou em Assunção, desde o início da crise, foi na segunda-feira. Exatos 54 camponeses, com bandeiras brancas e gritos ensaiados, andavam em fila indiana por uma das principais ruas comerciais da capital. Lojistas e pedestres pararam para ver a cena - alguns chegaram a tirar fotos.

Os temores de que o Paraguai estaria à beira da convulsão dissiparam-se logo após o impeachment e, na segunda-feira, o país retomou a rotina. No campo, supostamente o grande reduto de Lugo, tampouco foram registrados grandes protestos. Assessores de Lugo culparam a falta de transportes para Assunção pelo silêncio.

Doris Vásquez, dona de uma butique na capital, tinha feito planos de contingência em sua loja e casa para suportar os dias de distúrbios que supostamente estariam por vir. "Fomos ao supermercado, enchemos a dispensa e esvaziei meu comércio com medo de saques", disse. "Mas eles não vieram."

Ontem, em entrevista a jornalistas sul-americanos, o novo presidente Federico Franco disse que assumiu o governo para "evitar o risco de uma guerra civil". "Acho que nos botaram medo à toa", afirma Doris.

Milda Rivarola, historiadora e cientista política paraguaia, identifica "três grandes medos" que vêm permeando a crise. Primeiro, o do caos nas ruas, propalado pelos principais partidos e jornais paraguaios. Segundo, o medo dos congressistas de que as Forças Armadas fizessem algum movimento inesperado em meio aos acontecimentos. "Os militares constituem hoje um poder muito debilitado e têm um custo altíssimo para o Estado. Temia-se que eles entrassem na equação", disse Milda ao Estado.

E, por último, há o medo do isolamento internacional. "Não sei se vão fazer conosco o que fizeram com Cuba", diz Norma Rachid, vendedora de uma loja de celulares. Na imprensa, há ainda rumores sobre o fechamento da fronteira com a Argentina e o Brasil.

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