Medo dos combates em Damasco é combustível para migração

Refugiados no Líbano falam de lutas ferozes, outros de vida quase normal, prova da instabilidade do país

BEIRUTE, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2012 | 03h05

Salaheddine, Aazamiye Akramiye, Ard el-Sabbagh, Midane, Jobar. Os nomes de bairros de Damasco envolvidos nos confrontos entre rebeldes e desertores do Exército Sírio Livre (ESL) e as forças leais ao ditador Bashar Assad se multiplicaram nos últimos dias, impulsionando milhares de pessoas a deixar a Síria. Até o momento, é difícil obter informações sobre quem leva vantagem na ofensiva dos insurgentes pela capital, mas é claro quem leva a desvantagem: os civis obrigados a fugir.

Entre os sírios e estrangeiros que deixam o país e ingressam no Líbano, os testemunhos se dividem. Alguns relatam bombardeios violentos, uso de armamento pesado, destruição e mortes. Esses falam de escassez de alimentos básicos, como pão e leite. Outros, que em geral não aceitam entrar em detalhes sobre a situação, falam em "vida normal", mas não sabem explicar por que, então, deixam o país.

"Eu ouvia disparos toda noite. E eles ficavam cada dia mais intensos", disse ao Estado A.M., um dos empresários sírios que ontem retornava ao país pelo posto de Masnaa, após deixar a família em Beirute.

Fazendo o caminho inverso, um técnico em informática que deixava a Síria fazia o relato oposto. "A minha vida não mudou, porque meu bairro não foi atingido. Mas não sabemos onde isso vai parar", reconheceu ele, que pediu para não ter seu nome divulgado. "Vamos passar algumas semanas no Líbano até que as coisas estejam mais claras."

Relato virtual. Em razão da restrição imposta pelo regime Assad à presença de jornalistas ocidentais, os relatos de habitantes de Damasco são cada vez mais raros. Um dos mais completos é feito pelo francês Jean-Pierre Duthion. Casado com uma síria e com negócios no país, o empresário de 30 anos vem narrando a chegada do conflito à capital pelo Twitter.

Há um mês, ele afirmava que a vida "não tinha mudado muito" na Síria. Agora o discurso é outro. "Tiros e explosões. Impossível de definir exatamente de onde vêm", escreveu ele na madrugada de quarta-feira para quinta.

Segundo Duthion, os combates mais intensos ocorrem à noite, mas não há pânico generalizado na cidade e bairros conflagrados. "Damasco é uma megalópole muito extensa. Quando os combates estão localizados em uma parte da cidade, outros bairros podem ser preservados", relata. "É difícil para um habitante de Damasco dizer exatamente o que está acontecendo." / A.N.

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