@JOHNACHAU/via REUTERS
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Medo e fé: os últimos dias do missionário americano morto por tribo isolada na Índia

John Allen Chau registrou em diário de 13 páginas sua jornada até a Ilha Sentinela do Norte, onde vive a tribo considerada a mais isolada do mundo, e que resultou em sua morte; americano de 26 anos pretendia converter nativos para o cristianismo

O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2018 | 12h17

NOVA DÉLHI - Na noite anterior ao retorno de John Allen Chau pela última vez à remota Ilha Sentinela do Norte, na Índia, ele lutou contra um sentimento de medo de que sua morte fosse iminente.

"Estou assustado", escreveu o americano de 26 anos morador do Estado de Washington, que viajou de forma clandestina até a remota ilha para tentar converter seus habitantes - considerados os mais isolados do mundo - para o cristianismo. "Observei o pôr do sol e foi maravilhoso - chorei um pouco... Me pergunto se será o último pôr do sol que eu vejo."

Seu contato inicial com os habitantes de Sentinela do Norte, uma pequena tribo de caçadores que rejeitam contato com o mundo exterior, não havia corrido bem. Um adolescente atirou uma flecha que perfurou sua Bíblia à prova d'água.

Ainda assim, Chau decidiu voltar para a ilha e tentar novamente, impulsionado pelo sentimento de que ele era um instrumento de Deus. "Deus, esta ilha é o último bastião do Satã, onde ninguém ouviu ou sequer teve a chance de ouvir o seu nome?", escreveu no diário em que registrou seus últimos e que foi enviado ao The Washington Post por sua mãe.

Ele deixou as 13 páginas, escritas a caneta e lápis, com os pescadores que o transportaram para a ilha. Na manhã seguinte à última viagem de Chau às costas da ilha, os pescadores viram seu corpo sendo arrastado e enterrado na areia.

A polícia da cidade de Port Blair, a capital das Ilhas de Andaman e Nicobar, na Índia, enviou nesta semana um helicóptero e uma equipe de barco para avaliar se é possível recuperar o corpo. Diplomatas americanos também estão em Port Blair para prestar assistência.

O diário de Chau revela um jovem obcecado com a ideia de levar o cristianismo para os moradores de Sentinela do Norte, que vivem sem contato do mundo exterior há séculos e são protegidos dos visitantes pela lei indiana.

O registro também mostra que Chau sabia que sua missão era ilegal. Ele escreveu sobre as manobras para evitar as autoridades indianas que patrulham as águas perto da ilha. “Deus estava nos escondendo da Guarda Costeira e de muitas patrulhas”, afirmou ao descrever a jornada do barco.

Ele não tinha contado para ninguém sobre seu plano de contratar pescadores locais para ajudá-lo a chegar até a ilha porque "ele não queria colocar outras pessoas ou seus amigos em risco" um de seus amigos, Bobby Parks, escreveu para a mãe de Chau após sua morte, de acordo com um e-mail que ela compartilhou com jornal americano.

A fatídica expedição de Chau causou indignação generalizada na Índia, país de maioria hindu, onde os evangélicos cristãos são frequentemente vistos com raiva ou de forma suspeita. Críticos afirmam que sua violação à lei indiana foi egoísta e colocou em risco a frágil tribo - potencialmente expondo-os a doenças modernas para as quais não têm imunidade.

Um viajante ávido que se formou na Universidade Oral Roberts, Chau visitou as ilhas Andaman e Nicobar quatro vezes no passado e ficou impressionado com a beleza natural e o isolamento da região.

No barco a caminho da Ilha Sentinela do Norte - viajando à noite para evitar ser detectado pelas autoridades -, Chau escreveu sobre plânctons bioluminescente vistos sob as estrelas e como peixe saltou da água como uma a água parecendo uma sereia.

Depois de remar em um caiaque até a ilha, Chau tentou ganhar a confiança dos habitantes oferecendo peixes, tesouras como presentes e cantando “canções de adoração”. Uma seção de seu diário é dedicada às suas impressões sobre os habitantes da ilha: ele escreveu detalhes da língua local, comporta por “muitos sons agudos” e gestos.

Perto do final do registro, Chau se perguntou se deveria abandonar sua busca ou voltar para a ilha e arriscar as consequências.

“Eu acho que poderia ser mais útil vivo .? .? Mas para você, Deus, eu dou toda a glória de tudo o que acontece”, escreveu. Ele pediu a Deus que perdoasse “qualquer uma das pessoas nesta ilha que tentam me matar, especialmente se tiverem sucesso.” / THE WASHINGTON POST

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