Medvedev e a desilusão sobre o salvador da pátria

Esperava-se que o presidente se manifestasse e mostrasse aos russos e ao mundo que seu país havia extrapolado, mas os incêndios revelaram que ele somente cumpre ordens

JULIA IOFFE, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2010 | 00h00

Quando seu país, cozinhando há dias num calor sem paralelo, de repente explode em chamas em 831 lugares destruindo 200 mil hectares, matando mais de 50 pessoas, amortalhando sua capital em fumaça tóxica, e ameaçando liberar velha radiação de Chernobyl na atmosfera, alguém precisa fazer alguma coisa. Mas se você for o presidente russo não será essa pessoa. Você se sentará em seu escritório enquanto seu primeiro-ministro, com as mangas arregaçadas como homens de ação costumam arregaçá-las para significar que estão agindo, vai visitar a devastação, conversa com os cidadãos afetados e mostra ao país que, vejam, ele está a postos.

Após a primavera cálida Moscou-Washington que tivemos, seria perdoável acreditar na sabedoria convencional: que o agressivo e imprevisível premiê russo, Vladimir Putin, está afrouxando um pouco as rédeas do poder e o presidente Dmitri Medvedev, o liberal acanhado, está finalmente andando com os próprios pés. Mas os acontecimentos da semana retrasada serviram como claros lembretes de quem realmente está no comando - e como são vazias de fato as promessas de modernização de Medvedev.

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Primeiro veio a lei "Relatório da Minoria". Pela política proposta, que veio embutida numa legislação mais ampla destinada a ajudar as forças de segurança russas a combater o terrorismo, o Serviço de Segurança Federal (FSB, serviço secreto russo) poderia emitir advertências a pessoas que consideram no caminho do crime - podendo prendê-las por 15 dias.

Punição. Quando a lei foi introduzida, alguns esperavam que Medvedev, o Liberal, se manifestasse mostrando aos russos e ao mundo que seu país havia extrapolado ao punir seus cidadãos por atos ainda não cometidos.

O ativista pelos direitos humanos Lev Ponomarev disse ao jornal New York Times que esperava que Medvedev mostrasse "a coragem de se opor a essa lei". Para Ponomarev, isso renderia ao presidente muita credibilidade e lealdade em círculos liberais.

Mas aí Medvedev deixou tudo perfeitamente. Falando numa entrevista coletiva com Angela Merkel em Yekaterinburgo, em 15 de julho, ele disse que não só a sancionaria, como a havia proposto. "A situação é extremamente simples", disse o presidente. "Eu realmente não quero comentar agora as mudanças na legislação em curso. Mas, antes de tudo, gostaria de chamar sua atenção para o fato de que este é nosso sistema legal interno, e não uma lei internacional. Depois, todo país tem direito a seu próprio sistema legal, incluindo sua própria agência de inteligência. E nós faremos isso. E o que está ocorrendo agora - quero que saibam - está sendo feito sob minhas instruções diretas." Sua declaração causou uma tremenda decepção até para homens do presidente. Gleb Pavlovski, que dirige um centro de estudos estreitamente ligado a Medvedev e ajudou Putin a ser eleito em 2000, pareceu chateado e inseguro até quando tentou me explicar o motivo da nova lei.

"Os argumentos dos defensores da lei são que ela vem de uma ideia liberal. Não vamos abrir sempre um caso, tratemos antes de advertir as pessoas de maneira não repressiva", disse ele. Suspirando, acrescentou: "Infelizmente, essas emendas (as provisões permitindo ao FSB advertir pessoas antes de um crime ser realmente cometido) reintroduzem a velha ideia soviética do papel das forças de segurança e muda o conceito da lei, implicitamente atribuindo uma função quase judicial para o FSB. Essas emendas carregam o perigo de expandir informalmente os poderes do FSB."

Felizmente, na versão final da lei sancionada em 29 de julho, algumas partes foram deixadas mais vagas - e talvez menos aplicáveis - e a que permite que o FSB publique a advertência na mídia foi retirada por inteiro.

Renúncia. Essa foi a primeira coisa. O golpe seguinte veio no dia posterior à sanção da lei. Surgiram notícias de que Ella Pamfilova, chefe do Conselho de Instituições da Sociedade Civil e Direitos Humanos do presidente, renunciou inesperadamente, sem oferecer motivo para sua saída repentina. Pamfilova declarou: "Diria apenas que estou planejando mudar drasticamente minha área de atuação, e ela definitivamente não será nem a política nem o serviço público." Ela parecia exausta e amarga e Medvedev fez um show para aceitar a renúncia.

Mas o fato é que Pamfilova foi forçada a sair. Pouco antes da renúncia, ela havia criticado o Nashi, o grupo da juventude pró-Kremlin que enfeitou seu acampamento de verão com propaganda maldosa, exibindo as cabeças de conhecidos jornalistas e defensores dos direitos humanos em estacas e com capacetes da Wermacht com a inscrição "Vocês não são bem-vindos aqui".

Falando num programa de rádio, Pamfilova lamentou a "feia política da juventude" que inclina garotos para o fascismo e procura "torná-los soldadinhos de chumbo que podem obedecer a qualquer comando". "Fico assustada com o fato de que esses garotos estarão chegando ao poder dentro de alguns anos", disse ela.

"Será bizarro. Esta é a coisa mais assustadora. Porque essas crias de alguns de nossos tecnólogos políticos, em poucas palavras, estão vendendo suas almas ao diabo. Eles queimaram livros (não queimaram). Não me lembro, mas acho que queimaram uma efígie. Qual será o próximo passo? Será que não farão com pessoas da próxima vez?" Três dias depois, o Nashi abriu um processo por difamação e Pamfilova demitiu-se.

Esse não foi o primeiro embate com as crias satânicas. No final do ano passado, Pamfilova censurou publicamente o Nashi por "perseguir" um jornalista que havia escrito um artigo que o grupo considerou crítico aos veteranos (não era). Ela não quis se desculpar e vários membros do Partido Rússia Unida, de Putin, tentaram obter sua demissão. Ela não era muito querida nos círculos de poder. Pamfilova claramente havia pisado em alguns pés poderosos, e sua saída teve algo de sacrificial.

Após a morte de Sergei Magnitski no ano passado, Pamfilova pressionou publicamente Medvedev a agir e reformar o pavoroso sistema prisional da Rússia, antagonizando pessoas do Ministério do Interior.

Quando lhe pedi para comentar, por telefone, Pamfilova insistiu que não havia sido obrigada a sair. "Não sou o tipo de pessoa que tolera pressão", disse. "Se quisesse ficar e lutar, teria ficado e lutado. É mais uma questão fundamental sobre a política do desenvolvimento deste país. O presidente Medvedev expressou seu desejo de que eu ficasse, mas é importante para mim a forma que isso toma."

Por enquanto, ela está de férias. "Estou completamente exausta pelo que ocorreu." Atirar Pamfilova embaixo do trem foi outra concessão de Medvedev à facção de "gorilas", a coalizão mais tradicional no interior do Kremlin que precisa falar duro e bater no peito. O que nos traz à resposta ligada aos incêndios sem precedente na Rússia.

Enquanto Medvedev ficava sentado em seu escritório e demitia cinco funcionários por ter deixado queimar a base da aviação naval nos arredores de Moscou, um telefonema foi, coincidentemente, captado pelo maior canal de TV estatal. "Sim, Vladimir Vladimirovich", diz Medvedev desde seu elegante escritório, olhando para baixo, tamborilando os dedos na escrivaninha. "Alô, alô. O que está havendo?"

"A situação está difícil", diz Putin, franzindo a testa e olhando em torno como se estivesse falando num celular. Transcorrem alguns minutos de densa conversa burocrática - vocês sabem, sua conversa normal por celular - para Putin dizer a Medvedev, em seu escritório, distante do povo, o que ele precisa fazer, que é carimbar o que o premiê lhe diz que deve ser feito, por causa de seu ponto privilegiado nos locais do desastre: aumente a capacidade de combate ao fogo, acelere o processo de indenizações.

Porque nada indica melhor a "igualdade" que dar a seu parceiro uma lista de tarefas. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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