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Hannah Mckay/Reuters
Hannah Mckay/Reuters

Meghan e Harry discutem intrigas palacianas em horário nobre da TV

Pertencer à família real significa servir a uma instituição e isso não funciona para os que buscam projeção individual

The Economist, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2021 | 05h00

O histórico da monarquia britânica em relação a aceitar forasteiros é inconstante. Em tempos recentes, houve um sucesso extraordinário (Kate Middleton, mulher do príncipe William), vários sucessos moderados (incluindo Sophie Rhys-Jones, mulher do príncipe Edward), alguns questionáveis (entre eles, Sarah Ferguson, ex-mulher do príncipe Andrew) e dois fracassos (Diana Spencer, a falecida Princesa de Gales, e Meghan Markle, mulher do príncipe Harry).

No domingo, o mundo foi apresentado à dramática evidência do mais recente desastre, na forma da entrevista que Harry e Meghan – o duque e a duquesa de Sussex – concederam a Oprah Winfrey, uma das apresentadoras de talk-shows mais famosas dos EUA.

As afirmações eram, em parte, conhecidas. A solidão mencionada pela duquesa e a falta de apoio dentro da “firma” fizeram eco à experiência da princesa Diana. “Isso era muito, muito claro”, respondeu ela ao ser questionada se tinha pensamentos suicidas. “Muito claro e muito assustador. Eu não sabia a quem pedir ajuda.” 

O novo elemento mais explosivo foi racial. A duquesa afirmou que, quando estava grávida de seu filho, Archie, seu marido lhe contou que havia “conversas sobre quão escura a pele dele seria”, mas ambos se recusaram a dizer quem levantou o assunto.

Outra grande diferença entre a mãe do príncipe e a mulher dele é que, neste caso, a mulher deixou o país e levou o marido com ela – como fez Wallis Simpson, a última americana a se casar com um membro da família real, que foi embora para Paris com Edward VIII. O doloroso impacto da decisão de Harry de partir também veio à tona na entrevista: por um tempo, afirmou o príncipe, o pai dele parou de atender seus telefonemas.

Essas revelações indicam qual é parte do propósito da entrevista. Houve muita crítica a respeito da decisão do casal de deixar o Reino Unido para viver na Califórnia e sua tentativa de, ao mesmo tempo, manter alguns dos privilégios da realeza. A entrevista com Oprah – que é também uma amiga – é uma boa maneira de contar seu lado da história.

Tamanha exposição também poderia aumentar o grau de celebridade e popularidade deles, do que depende seu ganha-pão, agora que eles foram cortados financeiramente da família real. Mas também representa o corte dos laços. Para Meghan, pelo menos, não haverá possibilidade de volta.

A família real tende a se colocar acima dessas questões. Mas alguém, de dentro ou de fora das dependências reais, lançou um ataque preventivo. Após a gravação da entrevista, mas antes de sua veiculação, uma queixa feita contra a duquesa, em 2018, por um graduado funcionário palaciano foi vazada ao Times.

Jason Knauf, na época assessor de imprensa de ambos os príncipes, escreveu a Simon Case, então secretário particular do príncipe William e atualmente diretor de serviço civil, afirmando que ela havia “intimidado e expulsado dois funcionários do palácio”, e estava intimidando um terceiro. Ele estava “preocupado porque nada será feito” – com razão, pois parece que nada realmente foi feito.

Além das críticas de ambos os lados, o problema fundamental, contra o qual a princesa Diana lutava, está claro. Pertencer à família real significa servir a uma instituição. Isso não funciona para aqueles que almejam atenção individual. A única maneira de realizar o trabalho apropriadamente é por meio da modéstia, algo em que a rainha, que não deu nem uma única declaração interessante em seus 70 anos no trono, saber fazer bem. Não por ela ser uma pessoa enfadonha, mas porque ela compreende as exigências de seu trabalho. 

Kate Middleton, Duquesa de Cambridge, é ao mesmo tempo brilhantemente insossa. A Duquesa de Sussex não é; e a reclamação dela na entrevista, de que quando pertencia à família real não era autorizada a conversar com Oprah se outras pessoas não estivessem no recinto, demonstrou o fracasso dela em compreender a necessidade de subordinar suas necessidades individuais às da instituição.

Dado o impacto de uma entrevista desse tipo para a monarquia, teria sido bizarro da parte dos chefes de comunicação da realeza permitir que ela negociasse por conta própria com a entrevistadora mais poderosa do mundo.

Seja como for, a duquesa concedeu a entrevista nos seus próprios termos. Isso pode trazer algum benefício para o casal. Pode prejudicar um pouco a monarquia, mas provavelmente não muito. A rainha e o príncipe William são muito mais populares do que os duques de Sussex.

Os britânicos interessados nessa disputa se colocam a favor do palácio à razão de mais de dois para um. E a popularidade da monarquia parece imune a esses problemas. Mesmo durante a separação de Diana, ela mal se abalou. Isso pode ter a ver com a popularidade da rainha. Depois que ela morrer, a coisa pode ser diferente./TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL  

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