Jim Watson/AFP
Jim Watson/AFP

Meio ambiente será tema central no debate presidencial americano

Assunto é um dos cinco que serão discutidos no evento; Biden se afasta de Green New Deal, pauta da ala mais progressista do partido democrata

Levy Teles, especial O Estado de S. Paulo

22 de outubro de 2020 | 15h00

No debate presidencial americano desta quinta-feira, 22, entre Joe Biden e Donald Trump, o meio-ambiente volta a ser um dos temas em disputa. A Comissão de Debates Presidenciais dos Estados Unidos definiu a questão de mudanças climáticas como um dos cinco temas a serem abordados. 

Assunto que ganha relevância crescente em um período de incêndios em número recorde - sobretudo na Califórnia - furacões, enchentes e outras tragédias climáticas se tornam ainda mais comuns pelo país. A discussão sobre a área marcou presença nos encontros entre os candidatos a presidente e vice. 

Pouco foi falado sobre meio-ambiente tanto no primeiro debate presidencial entre Joe Biden e Donald Trump, em Ohio, no dia 29 de setembro, como entre os vices Kamala Harris e Mike Pence, no dia 7 de outubro. Mas um momento chamou a atenção. 

Questionado pelo moderador Chris Wallace sobre seu posicionamento sobre o Green New Deal, Biden se separou da proposta ambiciosa da deputada Alexandria Ocasio-Cortez para a descarbonização da sociedade americana. "Não, eu não apoio o Green New Deal", disse. "Ah, você não? Essa é uma grande declaração", rebateu Trump.  "Eu apoio o que chamo de ‘plano Biden’ que levarei adiante”, treplicou o democrata. 

O ‘plano Biden’, lançado em agosto, pretende investir US$ 2 trilhões para que a produção do setor energético do país seja totalmente limpa até 2035; para outros setores, como transporte e economia a meta é de quase zero emissão em 2050. Mas o termo Green New Deal continua sendo uma alvo de ataque dos republicanos a Biden. 

A proposta de Ocasio-Cortez, em 2019, faz alusão à iniciativa do presidente Franklin Delano Roosevelt, o New Deal - responsável pela reestruturação econômica americana após a Grande Depressão em 1929 - com o plano de abolir emissões adicionais de carbono até 2030, num esforço de 10 anos para converter 100% da demanda energética americana e fontes de energia limpa e renovável. 

Para a professora Fernanda Magnotta, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), o tema ambientalista não escapou da estratégia de Trump para transformar Biden num radical à esquerda. “A campanha do presidente está desde a nomeação tentando colar que a candidatura de Biden representa uma guinada à esquerda”, diz. “A defensora do Green New Deal, Alexandria Ocasio-Cortez, é muito mais à esquerda que Biden e Harris - e no começo manifestou o apoio continuado a Bernie Sanders.”

O presidente costuma disparar constantes ataques ao Green New Deal. Ele afirmou que a plataforma poderia custar até US$ 100 trilhões ao cofres públicos americanos. “Existe uma utilização oportunista do lado do Trump. A resposta de Biden é difícil, porque se ele assume a ideia, ele faz o que Trump quer”, afirma Magnotta. “Ele quer que diga que é a favor a ideia para reforçar o que ele é o radical de esquerda.”

Mas, para Biden, afastar-se completamente do Green New Deal também tem um custo político. “Se Biden nega que apoia esse modelo, ele de certa maneira trai uma parte importante do seu eleitorado”, conclui a professora. 

Green New Deal e juventude

“O Green New Deal é uma mudança que vai além do meio-ambiente”, diz Goulart Menezes, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília e pesquisador do Instituto Nacional de Estudos sobre os Estados Unidos. 

O texto levado ao congresso americano também discute temas como desigualdade de renda, em que aponta que os Estados Unidos lidam “com a maior desigualdade de renda desde 1920", com “grandes disparidades” entre os gêneros e grupos raciais. 

“É uma mudança que vai além. E a juventude já incorporou vários desses princípios”, pontua Menezes.  Uma pauta relevante no país. Ed Markey, senador pelo Estado de Massachusetts, foi um dos políticos catapultados pelo Green New Deal. Principal voz da plataforma no Senado, perdia nas primeiras pesquisas primárias como candidato democrata para a casa, em 2019, por 17 pontos. 

Com o apoio do Sunrise Movement - principal organização de jovens que apoia o Green New Deal - a virada foi completa. Em agosto deste ano, venceu as eleições primárias democratas ao Senado por mais de 10 votos. 

Há também uma urgência para mudanças na política ambiental global nos próximos anos. De acordo com relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) de 2018, o mundo só tem uma década para controlar os danos pelo aquecimento global.

Durante o governo Trump, houve sinalizações de um afastamento americano em torno de um acordo global para a redução de emissão de gases estufa. Em 2017, os EUA saíram do Acordo de Paris, pacto global ratificado por 195 países para conter o avanço das mudanças climáticas. Apesar de reduzir a emissão de carbono nos últimos cinco anos, os EUA  ainda são o segundo maior país do mundo em liberação de dióxido de carbono, atrás apenas da China. A principal fonte energética americana ainda é o petróleo.

Relatório da Energy Information Association de 2019 mostra que petróleo, carvão e gás natural correspondem a 80% do total do consumo de fontes primárias de energia. Fontes renováveis ainda são apenas 11% do todo.

Problema econômico

Na visão de Magnotta, o tema ambiental é bem-vindo entre os democratas. “O partido tem sido entusiasta de questões ambientais e sociais na hora de defender acordos, tratados e em aspectos de comércio”, afirma. No primeiro debate, Biden chegou a sinalizar a possibilidade de sanções econômicas ao Brasil por conta da situação da Amazônia.

O problema é saber até que ponto o partido pretende avançar no tema. O ‘plano Biden’, estimado na quantia de US$ 2 trilhões, pretende conseguir o recurso com a reversão das desonerações fiscais no governo Trump. 

“Vai depender das coalizões que o governo vai formar. Haverá uma reação de segmentos que vão preservar as desonerações fiscais, haverá também a necessidade de acomodar lobbies profissionais, como o do petróleo”, pondera Magnotta. “E Biden sabe disso, foi senador por 40 anos - o papel dele era fazer articulação no congresso.”

Por outro lado, Biden não parece disposto a assimilar algumas das pautas mais progressistas do Green New Deal. “As bandeiras que tratam a questão da desigualdade estão com Bernie Sanders, adversário de Biden nas primárias, de agenda mais progressista. Ele não assume o Green New Deal como uma plataforma política de uma ala mais à esquerda do partido democrata”, diz Menezes.

 A alternativa, na visão do professor, é buscar uma solução diplomática. “A ala do Biden é mais ligada ao Obama, a um discurso de conciliação. Nessa conciliação das agendas, Biden tende a diluir a ideia de um Green New Deal numa questão ambiental mais ampla”, avalia.

Fraturamento Hidráulico

A preocupação recente dentro da agenda ambiental do partido democrata gira em torno do ‘fracking’, ou fraturamento hidráulico, nome dado às perfurações em profundas camadas do subsolo para a extração de gás e petróleo. 

No debate entre vice-presidentes, a democrata Kamala Harris falou que Biden não irá banir o fraturamento. Poucos minutos depois, a congressista Alexandria Ocasio-Cortez tuitou: “Fraturamento é ruim, na verdade.”

 

O ‘fracking’ foi banido no Reino Unido em 2011, após geólogos indicarem a possibilidade de associação entre o fraturamento e terremotos. Estudo do Serviço Geológico dos Estados Unidos mostra que áreas em que ocorrem o fracking estão mais propensas a atividade sísmica. Possíveis danos ao solo e aos lençóis freáticos também são também relatados em outras pesquisas.

Hoje, o fraturamento hidráulico gera dezenas de milhares de empregos em Estados como Pensilvânia, Texas e Ohio, cruciais para uma vitória presidencial. 

Desde então, o tema se tornou presente nos ataques de Trump. Desde a primeira semana de outubro, o presidente americano tenta associar Biden ao banimento da atividade em tuítes e em discursos em comícios pelos Estados Unidos.

“Temos uma disputa de interesses setoriais”, pontua Magnotta. “Do lado dos produtores de xisto, vai haver a defesa que o fraturamento permite os EUA serem competitivos e ter independência energética - o que uma segurança estratégica. A defesa democrata do fraturamento vem como um meio necessário”, conclui.

 

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