AP Photo/Andrew Harnik
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Enigma:Como Melania conseguiu o 'visto Einstein', para quem tem habilidades extraordinárias

Primeira-dama solicitou o visto ao governo por meio de um recurso destinado a pesquisadores acadêmicos renomados, executivos de empresas multinacionais e indivíduos como atletas olímpicos e atores ganhadores do Oscar

O Estado de S.Paulo

01 Março 2018 | 15h33

WASHINGTON - No ano 2000, Melania Knauss, uma modelo eslovena que namorava o magnata Donald Trump, iniciou o processo para solicitar ao governo americano o direito de residir permanentemente nos EUA por meio de um recurso reservado apenas a pessoas com “habilidades extraordinárias”.

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As referências profissionais que Melania tinha incluíam participação em desfiles de moda na Europa, um anúncio publicitário da marca de cigarros Camel na Times Square, em Nova York, e um lugar na edição da revista Sports Illustrated, que a mostrava em uma praia com um biquíni fio-dental, abraçando uma baleia inflável de quase dois metros.

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Em março de 2001, ela conseguiu obter um green card na categoria de elite EB-1, que engloba pesquisadores acadêmicos renomados, executivos de empresas multinacionais e indivíduos de outras áreas, como atletas olímpicos e atores ganhadores do Oscar, que tenham demonstrado “aclamação nacional e internacional sustentada”.

“Chamamos de visto Einstein”, disse Bruce Morrison, ex-deputado democrata e líder do subcomitê da Câmara que redigiu o Ato Migratório de 1990 com as determinações do EB-1.

No ano em que a atual primeira-dama dos EUA obteve sua residência legal, apenas cinco pessoas da Eslovênia receberam green cards por meio do EB-1, segundo o Departamento de Estado. Dos cerca de um milhão de documentos emitidos em 2001, apenas 3.376 foram concedidos a imigrantes com “habilidades extraordinárias”, apontam as estatísticas do governo americano.

O green card de Melania não apenas a colocou no caminho para pedir cidadania americana, mas também permitiu que ela patrocinasse a residência legal de seus pais, Viktor e Amalija Knavs. O jornal The Washington Post informou no dia 21 que eles haviam se tornado residentes permanentes nos EUA.

Trump propôs acabar com o patrocínio de parentes como pais, acabando com possibilidade de que cidadãos americanos ajudem seus parentes a obter residência legal nos EUA. “A cadeia migratória precisa acabar agora! Algumas pessoas chegam e trazem a família toda com elas, que podem ser más. Não é aceitável”, disse o presidente em sua conta no Twitter em novembro.

Michael Wildes, advogado de Melania e da família dela, não quis comentar se ela patrocinou os pais para conseguir os documentos. Ele disse que não estava surpreso que poucos imigrantes da Eslovênia tenham obtido os green cards EB-1 em 2001 em razão do critério ser tão rigoroso.

“A sra. Trump era mais do que qualificada e elegível”, afirmou Wildes, sem detalhar quais qualificações ela apresentou em sua solicitação de residência permanente. “Não há razão para julgar o pedido dela publicamente quando a privacidade é tão importante para ela”, ressaltou o advogado.

Dúvidas

Especialistas em imigração dizem que os esforços do presidente para restringir a imigração legal despertam questionamentos sobre como a primeira-dama e os membros da família dela obtiveram residência nos EUA, e como ela convenceu as autoridades migratórias de que era qualificada para a categoria EB-1.

Bruce Morrison afirmou que o currículo de Melania em 2001 parece “incompatível” com as determinações necessárias para obter o visto. Para isso, um imigrante deve fornecer provas de que recebeu algum prêmio grande ou atender a ao menos três dos dez critérios pedidos. Entre eles, está evidência de sucesso comercial em apresentações artísticas, de trabalho apresentado em exibições artísticas e de contribuições originais em algum setor.

“Como ela procedeu?”, questiona David Leopold, um advogado de imigração e ex-presidente da Associação Americana de Advogados de Imigração. “Há uma série de dúvidas sobre como ela conseguiu entrar nos EUA.”

O processo de decidir quem se encaixa na categoria de “habilidades extraordinárias” é subjetivo, segundo Sarah Pierce, especialista em imigração do Instituto de Políticas Migratórias. Mas acredita-se que apenas 2% da população em seu setor poderia estar qualificada, explicou ela, acrescentando que o “prêmio por excelência que as pessoas querem colocar na solicitação é o Nobel”.

Carreira

A primeira-dama chegou aos EUA da Eslovênia em 1996, primeiro com um visto de turista e mais tarde com vistos de trabalho, segundo Wildes. No início, ela não era muito conhecida no alto circuito do mundo da moda, de acordo com pessoas da área. “Ela nunca foi uma supermodelo, era uma modelo como várias outras em Nova York”, disse uma pessoa que conheceu Melania nos anos 1990 e pediu para não ser identificada.

Em 1998, com 28 anos, ela começou a namorar Donald Trump depois de conhecê-lo em uma festa, o que a ajudou na carreira, já que começou a aparecer em colunas sociais ao lado do magnata imobiliário.

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Na época, ela trabalhava com um visto de trabalho para imigrantes especializados. Melania recebeu cinco vistos desta categoria entre outubro de 1996 e 2001, afirmou Wildes.

Sob a administração do marido, esses vistos temporários são difíceis de obter, causando uma queda de mais de 50 mil em 2017 em comparação com o ano anterior, de acordo com o Serviço de Cidade e Imigração dos EUA.

Em janeiro de 2000, Melania apareceu na capa da versão britânica da revista GQ. Ela foi fotografada nua em um tapete de pele no jato particular de Trump com o título “Sexo a 30 mil pés de altura. Melania Knauss ganha suas milhas aéreas”.

O artigo previa que as aspirações políticas de Trump poderiam transformar sua namorada eslovena em primeira-dama dos EUA um dia. “Colocarei meus esforços nisso”, disse ela à publicação, “e apoiarei meu homem”. / THE WASHINGTON POST

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