Membro da Irmandade preocupa Ocidente

Grupo islâmico quebra promessa de ficar fora da disputa presidencial e pode dominar Executivo e Legislativo do Egito

CAIRO, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2012 | 03h05

Ao nomear, na semana passada, Khairat al-Shater como seu candidato a presidente do Egito, a Irmandade Muçulmana quebrou a promessa de não buscar a presidência e o monopólio do poder. Shater, 62 anos, um magnata dos negócios, era um preso político havia um ano. Em razão da popularidade da organização, ele é agora favorito.

Shater foi nomeado em um momento de escalada das tensões entre os militares e a Irmandade, um grupo islâmico colocado na ilegalidade durante o regime de Hosni Mubarak, que já domina o Parlamento que está escrevendo a nova Constituição.

Ela agora reivindica a substituição do gabinete controlado pelos militares e luta por um certo grau de supervisão civil sobre as Forças Armadas. Sua candidatura preocupa o Ocidente e deixa indignados os liberais egípcios, que tentam imaginar que outras promessas a Irmandade pode abandonar.

A entrada da Irmandade na corrida presidencial também transforma a eleição em um debate sobre o futuro do movimento político islâmico que, seguramente, repercutirá na região. Shater enfrenta rivais islâmicos à sua esquerda e à sua direita - um ex-líder da Irmandade, mais liberal, e outro, um salafista ultraconservador.

Na verdade, a Irmandade pode ter entrado na corrida, em parte, porque uma votação expressiva de qualquer um desses rivais poderia minar a autoridade do grupo como a voz predominante do islamismo na política egípcia.

Shater é considerado conservador, mas pragmático. Ele tem defendido que o Islã pede tolerância e democracia, capitaneou a liberdade de comércio e mercados abertos e conduziu a Irmandade em seu primeiro compromisso público de sustentar o acordo de paz com Israel.

No entanto, ele também defende um governo explicitamente islâmico. E, apesar de alguns no grupo terem defendido que a Irmandade deve tolerar abordagens distintas da política islâmica por seus membros, ele ajudou a fortalecer a autoridade do comitê executivo da organização sobre seus integrantes, provocando acusações de liberais de que isso é antidemocrático.

As dúvidas sobre a força do compromisso da Irmandade com suas promessas causam preocupações nos EUA e em Israel, que consideravam o compromisso do governo Mubarak com o acordo de paz uma peça-chave da estabilidade regional.

Uma autoridade israelense, falando sob condição de anonimato, não quis comentar especificamente sobre Shater, mas considerou a nomeação "preocupante". "Obviamente, essa não é uma boa notícia", disse. "A Irmandade Muçulmana não é amiga de Israel. Eles não desejam o nosso bem. A grande questão será até que ponto eles serão pragmáticos depois de chegarem ao poder. Isso pode avançar em qualquer direção."

Em Washington, o Departamento de Estado não quis comentar o assunto, mas muitas autoridades americanas, que conheceram Shater em visitas ao Cairo, incluindo funcionários do alto escalão do governo e delegações de congressistas, elogiaram sua moderação, sua habilidade para os negócios e sua eficácia.

Em uma coletiva para anunciar a nomeação, dirigentes da Irmandade e de seu braço político insistiram que foram obrigados a lançar um candidato por causa das necessidades urgentes deixadas após mais de um ano do governo de transição comandado pelos militares. Eles mencionaram uma crise econômica crescente e eventuais "ameaças à revolução".

"Decidimos que o Egito precisa agora de um candidato nosso para assumir a responsabilidade", disse Mohamed al-Morsi, presidente do Partido da Justiça e da Liberdade, ligado à Irmandade. "Não temos o menor desejo de monopolizar o poder."

Shater não estava presente na coletiva. Em vez disso, o guia supremo da Irmandade, Mohamed Badie, leu uma carta em que ele renuncia a seu cargo de vice-líder supremo para concorrer à presidência. "Embora eu nunca tenha pensado em ocupar um cargo executivo no Estado ou concorrer a ele, não posso deixar de cumprir a decisão do grupo", escreveu Shater, segundo Badie. / NYT

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