Membros da Alba ameaçam boicote a cúpula regional

Bloco de Estados bolivarianos protesta contra exclusão de Cuba da reunião de países americanos marcada para abril na Colômbia

DENISE CHRISPIM MARIN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2012 | 03h06

Os Estados Unidos enfrentam o risco de ver a 6.ª Cúpula das Américas, nos dias 14 e 15 de abril em Cartagena das Índias, fracassar em razão do boicote dos países da Aliança Bolivariana das Américas (Alba), contrariados com a resistência americana em aceitar a presença de Cuba.

O encontro na Colômbia será palco de discussões sobre temas espinhosos. Os EUA devem levar ao debate seu esforço para derrubar, por meio de pressão internacional, o líder sírio, Bashar Assad, e também a interferência iraniana na América Latina.

Além de receber críticas pela ausência cubana, o presidente dos EUA, Barack Obama, será pressionado a pôr fim à sua neutralidade no conflito entre Argentina e Grã-Bretanha sobre a soberania das Ilhas Malvinas.

"A posição dos EUA é bem clara: em Quebec, em 2001, concordamos que somente os chefes de Estado eleitos democraticamente teriam o direito de participar da Cúpula das Américas", afirmou ontem Mike Hammer, secretário assistente de Estado para Relações Públicas, referindo-se ao caso de Cuba. "Queremos ver uma grande participação do hemisfério na cúpula de Cartagena. Aqui, temos como foco o avanço das metas da Cúpula das Américas para enfrentar os problemas comuns da região."

Em Havana, o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, tratou na quarta-feira de convencer seu colega cubano, Raúl Castro, a não estimular o boicote dos sete outros países da Alba na reunião de cúpula. Santos conversou também com o presidente da Venezuela e fundador da Alba, Hugo Chávez, sobre o tema. Aparentemente, Raúl Castro acolheu o pedido de Santos. Ontem, o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, declarou ser "inaceitável" e "injustificável" a exclusão de Havana, que atribuiu à "arrogância e ao desdém" de Washington.

Mesmo com a presença de todos os 34 países das Américas e do Caribe, a Cúpula de Cartagena tende a ser a mais polêmica desde 2005, quando Brasil, Argentina e Venezuela enterraram a negociação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) - em boa medida, por causa de temas paralelos e de importância imediata para a política externa americana.

O esforço americano para mobilizar a comunidade internacional em favor da renúncia de Assad tenderá a ser um dos mais nevrálgicos. A Venezuela autorizou nesta semana o envio de um terceiro carregamento de gasolina para a Síria, apesar do boicote econômico a Damasco liderado pelos EUA. O Brasil resiste a somar-se ao esforço americano. "Qualquer país que se interesse em ver um melhor futuro para o povo sírio, sem Assad, deve trabalhar com o restante do mundo para pressioná-lo e dar assistência ao povo sírio", afirmou Hammer. "Queríamos ver o Brasil trabalhando conosco e com outros países para nos ajudar a pressionar Assad."

A suspeita dos EUA de interferência do Irã na América Latina ganhou peso neste ano de eleições presidenciais americanas. As preocupações estão centradas nos elos de Teerã com Caracas e Manágua, mas também na possibilidade de suporte iraniano a ações terroristas na região. "Acompanhamos muito de perto a relação do Irã com países do hemisfério em razão de sua conduta preocupante no passado", afirmou Hammer, referindo-se aos atentados de 1992 e 1994 em Buenos Aires. "O fato de que o Irã apoia o terrorismo é muito preocupante, e temos de estar alertas."

Segundo Hammer, a visita do papa Bento XVI a Cuba, entre os dias 26 e 28, dará a oportunidade para mais um apelo em favor da democratização e do respeito aos direitos humanos no país. Washington espera ainda ver o papa pedir a Raúl Castro a libertação do americano Alan Gross, profissional a serviço da Agência Internacional de Desenvolvimento (Usaid) preso em Havana desde dezembro de 2009 e acusado de cometer crimes contra o Estado cubano.

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