‘Membros de células usam a religião para justificar violência’

‘Membros de células usam a religião para justificar violência’

Segundo diretor do Consórcio Nacional para o Estudo do Terrorismo da Universidade de Maryland, muitos dos que se uniram ao EI em países sem maioria islâmica têm pouca educação religiosa

Entrevista com

William Braniff

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2018 | 06h00

A existência de uma célula terrorista em que todos os integrantes sejam convertidos ao islamismo é rara, mas a religião não costuma ser o fator que atrai indivíduos com esse perfil ao extremismo, avalia William Braniff, diretor do Consórcio Nacional para o Estudo do Terrorismo da Universidade de Maryland. A seguir, trechos da entrevista.

- É surpreendente ver grupos relacionados ao Estado Islâmico no Brasil?

É menos frequente estarem na América Latina. Ao mesmo tempo, grande parte do recrutamento ocorre online. Com mídias sociais, é possível ter alcance muito mais amplo.

- A Espanha encontrou números de telefones brasileiros em grupo de WhatsApp suspeito de laços com o EI. Como diferentes grupos estabelecem contato?

Muitas mídias sociais são fóruns abertos, nos quais indivíduos podem disseminar propaganda ou falar em nome de organizações extremistas. Se alguém está fazendo isso no Twitter, pode ganhar a reputação de ser apoiador de determinado grupo. Uma vez que alguém o identifique, poderá contatá-lo com mensagens privadas. Sua presença em uma plataforma é propaganda para outra.

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- A acusação no Brasil tem como base mensagens e telefonemas. Falar sobre ataques terroristas seria suficiente nos EUA para processar alguém por terrorismo? 

Nos EUA, com frequência, indivíduos são processados por apoio material a uma organização designada como terrorista. Há uma lei específica que permite a abertura de processo contra os que dão dinheiro a grupos terroristas, que recrutam em seu nome ou que oferecem seus serviços a eles. Se os planos são específicos o bastante e há evidências de que eram conduzidos em nome de uma organização terrorista estrangeira, isso pode ser o suficiente. Mas, em muitos casos, não há prova suficiente de apoio material. Nessas situações, os policiais realizam prisão sob outras acusações ou infiltram uma pessoa disfarçada no grupo. 

- Todos os integrantes da célula que seria criada no Brasil são convertidos recentes ao islamismo. Isso é comum? 

Não é incomum ter convertidos recentes em grupos extremistas. Mas é incomum ter uma célula de 11 indivíduos e todos serem convertidos. Ainda assim, não é o islamismo que leva esse tipo de indivíduo a essas organizações. Eles usam a religião para justificar a violência, mas muitos dos que se uniram ao EI em países que não têm maioria muçulmana tinham muito pouca educação religiosa. 

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- Alguns dos brasileiros têm antecedentes criminais. Isso é comum?

A maioria não tem histórico criminal, mas isso é comum e verificamos que é mais frequente com o Estado Islâmico do que com organizações que o antecederam. Na Europa, nós vimos em anos recentes um porcentual maior de pessoas com antecedentes criminais. Nos EUA, nossos dados indicam que indivíduos com histórico criminal têm mais propensão a agir de maneira violenta depois de adotar uma ideologia extremista do que os que não têm esse histórico, o que é preocupante. 

- O Estado Islâmico continua eficaz no seu recrutamento, apesar de estar sendo derrotado na Síria e no Iraque? 

Menos efetivos do que em 2014, mas ainda são bem-sucedidos. Continua a existir um movimento terrorista abrangente do ponto de vista geográfico. Eles ainda estão engajados em terrorismo no Sudeste da Ásia, na Península do Sinai (Egito), no Afeganistão, na Líbia, no Oeste da África. Iraque e Síria não são os únicos lugares nos quais o grupo está ativo. Se você os segue nas mídias sociais, todos os dias há mais violência e mais propaganda que pode ajudar a convencê-lo de que vale a pena lutar.

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