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Adriana Carranca
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Memória curta

Na margem oriental do Rio Saint Lawrence, operários descobriram uma vala comum com 6 mil corpos de imigrantes, mortos na travessia por mar em embarcações frágeis e superlotadas - não se sabe se de exaustão, desnutridos, com sede, asfixiados ou abatidos por doenças epidêmicas, como tifo, que proliferam em porões imundos, apinhados de desesperados. Fugiam de conflitos religiosos, da miséria e da fome.

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2015 | 02h04

O ano era 1847. O Rio Saint Lawrence corta Montreal, no Canadá. Os migrantes miseráveis e famintos eram europeus. E o mar que atravessavam era o Atlântico.

No lugar da vala há hoje uma pedra negra onde todos os anos canadenses homenageiam os milhares de migrantes da Europa mortos nas travessias em busca de uma vida melhor na América. Pelo menos 30% sucumbiam, o que deu às embarcações o apelido de navios caixões. Dezenas naufragaram no Golfo do Saint Lawrence. Vinham de portos da Irlanda que já enfrentava tensões entre católicos e protestantes, vivia uma crise e foi surpreendida pelo "potato famine", surto de fome provocado pela quebra das safras de batata. Mais de 4 milhões de irlandeses deixaram o país.

Foi a primeira grande onda de emigração europeia, que se tornaria massiva nas décadas seguintes e levaria à maior crise migratória de que se tem notícia: a Grande Migração do Atlântico.

Entre 1880 e 1910, mais de 17 milhões de europeus entraram nos EUA - 570 mil por ano. É o dobro do total de migrantes que atravessaram o Mediterrâneo no ano passado para chegar aos países da União Europeia. Isso, com uma população mundial que em 1900 não chegava a 2 bilhões, quase quatro vezes menor do que hoje. Proporcionalmente, a crise migratória do Atlântico foi muito maior do que a atual.

Em 1906, a manchete do jornal New York World dizia: "12 novos americanos por minuto". Eles desembarcavam na Ellis Island, em Nova York - "ilha de esperança e lágrimas", como passou a ser chamada. Um poema de Emma Lazarus, judia imigrante, insculpido na Estátua da Liberdade dava as boas-vindas às "massas de amontoados" que "desejavam ser livres".

Analfabetos, pobres, famintos, perseguidos, esses europeus venciam medo, exploração e humilhação pelo sonho de um emprego e liberdade na outra margem do oceano. Eram os sírios, líbios, iraquianos, somalis, eritreus, afegãos de então. Enfrentavam entre 3 e 14 semanas no mar - isso quando um incêndio, comum na época, não tomava a casa das máquinas e os deixava à deriva. Viajavam nos porões fétidos de velhos navios, expostos a doenças, sem água ou comida suficientes, achacados por traficantes de seres humanos, como os que deixaram 71 asfixiar até a morte em um caminhão frigorífico há três dias na Áustria.

Na América, prosperaram e ajudaram a construir uma economia dinâmica e uma sociedade diversa, culturalmente rica e miscigenada. "Eles" se tornaram "nós". Mas a Europa parece ter se esquecido do próprio passado.

Hoje, protege-se entre muros e cercas elétricas, fecha portos, põe soldados, policiais e cães farejadores à caça de miseráveis, usa gás lacrimogêneo para manter afastados de suas fronteiras os que, um dia, foram europeus.

A emigração de europeus só diminuiu após a Revolução Industrial, quando as condições de vida no continente melhoraram. Isso nos dá uma pista sobre a solução para a crise atual: a maioria não quer deixar a terra natal, mas é expurgada pela pobreza, mudanças climáticas ou conflitos. A migração global ascende na medida em que aumenta a pressão sobre a população, também crescente, em disputa por recursos.

A diferença entre as ondas migratórias passadas e a de agora é que não há mais terras disponíveis, nem emprego. A América recebeu os imigrantes europeus porque precisava ocupar a lavoura, após o fim da escravidão. Essa mesma Europa xenofóbica sustentou o boom da indústria e a reconstrução no pós-guerra com a mão de obra barata dos novos imigrantes. Mas não existem mais eldorados.

No longo prazo, a solução está nos países de origem, muitos dos quais ainda sofrem com a herança da colonização europeia na África ou intervenções recentes, como Afeganistão e Iraque. A Europa tem uma clara obrigação moral com esses países e seus povos.

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