Memória do apartheid e do álbum 'Graceland' de Paul Simon

Documentário revela bastidores da gravação, 25 anos atrás

THOMAS, FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2012 | 03h07

De todas as vozes roucas e fascinantes no imperdível documentário de Joe Berlinger, Under African Skies (Sob os céus africanos), sobre o álbum clássico de Paul Simon, Graceland, gravado na África do Sul em 1985 - e o encontro dele com os mesmos artistas africanos 25 anos depois - a minha favorita é a do baixista Bakithi Kumalo. Ele fala daquele dia, em 1985, em que encontrou Paul Simon num estúdio de gravação em Johannesburgo.

"Eu trabalhava como mecânico e um dia meu patrão chegou e me disse que Paul Simon estava na cidade e estava à procura de alguns músicos. 'Paul Simon? Quem é Paul Simon?', perguntei. Ele então me explicou que as músicas dele estavam por todo lado, como as de Simon e Garfunkel. Mas isso não me dizia nada. Mas então peguei meu baixo e fui até o estúdio e conheci Paul e Roy Halee, o engenheiro de som. Eles então disseram, vamos lá, toque alguma coisa. E toquei um acorde. Paul sorriu, mas então ele parou e mudou o acorde. Não entendemos porque ele estava mudando. Mas ele precisava de uma outra parte ali que não sabíamos.

Então mudou e nos deu acordes diferentes, e então aprendemos coisas diferentes, era como se eu voltasse para a escola de música".

Assistir a esse filme é, na verdade, ir a uma escola de música e muito mais. Para muitos seria retornar à primeira vez que ouviram realmente as excepcionais harmonias e ritmos da música africana, graças a Graceland. Para alguns será penetrar no estúdio de um dos mais criativos músicos no nosso tempo, vê-lo ensaiar e fazer experimentos com os estilos, vozes e melodias dos músicos africanos e fundi-los com acordes e letras concebidos por ele e transformados em músicas que temos cantado desde então.

Apartheid. Mas o que me fascinou foi retomar a política de meados da década de 80, quando o apartheid sul-africano chegava ao seu momento mais atroz, levando o Congresso Nacional Africano (CNA) pedir um boicote diplomático, econômico, cultural e esportivo total do país. Isso foi antes da internet, da globalização, do iTunes e do YouTube.

Paul Simon foi atraído para a música sul-africana depois de ouvir uma fita cassete que lhe foi enviada pelos Boyoyo Boys. O músico dentro dele insistiu em seguir aquele som até suas origens, que a política fosse para o inferno. Atrevendo-se a ignorar o boicote cultural para produzir Graceland, ele ajudou a globalizar os talentos e os sons de um grupo de músicos da África do Sul à maneira antiga - um concerto e um álbum ao mesmo tempo - e no processo propiciou aos artistas a emancipação que nenhum movimento de libertação um dia conseguiria.

Hoje, os Boyoyo Boys acabam de produzir um vídeo para o YouTube e se globalizaram. Mas isso não era possível naquela época. Paul Simon tinha o direito, e estava certo, de fazer o que fez? Faz parte do filme um encontro, 25 anos depois dos eventos, entre Paul Simon e Dali Tambo, cofundador sul-africano do movimento Artistas contra o Apartheid, que impôs o boicote cultural.

"Acho que ele teve a grande ideia criativa de misturar sua música, seu ritmo e a sua ingenuidade com alguma coisa que encontrou na África do Sul", lembra Tambo. "Mas naquele momento não foi algo útil. Estávamos lutando pela nossa terra, nossa identidade. Tínhamos um trabalho a fazer e era sério. E consideramos Paul Simon uma ameaça...pois aquilo não foi autorizado...pelo movimento de libertação."

Politização. Paul Simon, que é meu amigo, ficou estarrecido com o apartheid, mas ainda hoje se irrita com a ideia de que, ao colaborar com artistas sul-africanos negros numa síntese que levou sua música e seus talentos para o mundo, ele estava prejudicando sua causa nacional.

"Quando os artistas têm algum tipo de discordância com a política, por que são os políticos os designados para dizer a nós, os artistas, o que fazer e o que supostamente devemos seguir - do contrário não somos bons cidadãos, não somos boas pessoas?", Paul Simon indaga no filme.

No final, ele e Tambo tratam dessa questão no filme e afirmam que nenhum dos dois quis prejudicar a causa do outro. De fato, o ANC convidou Simon e a banda que gravou Graceland para tocar no seu centenário. Mas o filme que acabou de ser lançado não deixa dúvidas quanto à situação em que estavam os músicos sul-africanos.

Relembrando sua turnê mundial com Paul Simon depois que a banda Graceland se tornou um sucesso, o saxofonista Barney Rachabane observa que na África do Sul os músicos negros não tinham oportunidade. "Podíamos tocar apenas nos redutos negros. Não tínhamos permissão para tocar na cidade, nos belos clubes noturnos. Você podia ter sonhos, mas eles jamais se tornariam realidade. E isso realmente o destrói. Mas Graceland abriu meus olhos e me deu esperança em minha vida". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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