Menção a ''3º ciclo'' confunde Venezuela

Para analistas, Chávez evita detalhar planos socialistas para não cair em erro de 2007

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

18 de fevereiro de 2009 | 00h00

Os venezuelanos ainda não entenderam bem o que seria o "terceiro ciclo da revolução bolivariana", anunciado pelo presidente Hugo Chávez após sua vitória no referendo de domingo sobre as reeleições ilimitadas. A confusão, porém, é resultado de uma decisão deliberada do presidente, de acordo com analistas. "Chávez percebeu ao vencer o referendo que há uma boa parcela da população que ainda não aceita a ?revolução socialista?, mesmo que o apoie e queira que ele continue no poder", disse ao Estado o cientista político José Molina, da Universidade de Zulia. "Ao não se alongar sobre as novas mudanças - dizendo apenas que elas "aprofundarão seu projeto" - o presidente evita assustar os venezuelanos como fez dois anos atrás."Ao assumir o cargo no início de 2007, Chávez anunciou seu "socialismo do século 21" com grande estardalhaço e explicações detalhadas sobre seus planos: nacionalizações, uma reforma no sistema educacional, a criação de outros tipos de propriedade além da privada (como a social) e a valorização dos conselhos comunitários. Mas a reforma constitucional que tornaria viável a adoção desse sistema foi rejeitada em referendo meses depois. "Na época, pensou-se que o projeto havia sido rejeitado por incluir a reeleição ilimitada, mas a vitória de domingo mostrou que o problema foi mesmo a menção ao socialismo", diz o analista político Omar Noria. Ele lembra que muitas das reformas rejeitadas no referendo de 2007 foram implementadas por decretos em 2008. "A tendência é que Chávez continue a fazer mudanças assim, com menos barulho para evitar que a oposição explore o argumento de que ele quer fazer do país uma nova Cuba", afirma o analista. Sem explicações oficiais, analistas e aliados do presidente continuavam ontem a especular em artigos e entrevistas sobre o que seria "o terceiro ciclo". Segundo o ex-vice-chanceler William Izarra, a nova fase incluiria "a substituição da democracia representativa por uma revolucionária", uma reforma no Judiciário e a "capacitação de comunidades para o exercício do poder". Sem citar fontes, o jornal El Universal diz que devem fazer parte do terceiro ciclo uma "reforma do sistema tributário", com o aumento de impostos sobre terras ociosas, a construção de "cidades socialistas" (sem explicações) e a criação de mais "empresas de produção social". "Em meio a toda essa especulação, a única certeza é que Chávez terá de adaptar seus planos à capacidade financeira e à resistência da população", diz Noria. "Por causa da crise, por exemplo, as nacionalizações devem ser paralisadas."

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