Olivier Douliery/Pool via AP
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Menção de Biden ao Brasil reforça peso da questão ambiental, dizem ex-embaixadores

Para Rubens Ricupero e Rubens Barbosa, fala de Joe Biden durante debate presidencial americano está alinhada à tendência global que pode ter impacto nos negócios nacionais

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 15h14

A menção ao Brasil feita pelo candidato democrata, Joe Biden, durante o primeiro debate da corrida presidencial americana, na noite de terça-feira, 29, serve de alerta ao País sobre o crescimento da questão ambiental na agenda das Relações Exteriores, tendência global que pode ter impactos negativos para o Brasil.

"A fala de Biden mostra a relevância da questão ambiental como um tema global. Não é uma questão da Europa ou dos Estados Unidos. A China está entrando nisso também. É um tema que passou a ter influência sobre as relações econômicas e comerciais, porque pode haver sanções a produtos brasileiros, eventualmente, além da manifestação de banqueiros, que dizem que vão dificultar empréstimos para empresas que não cumpram preceitos de sustentabilidade", disse para o Estadão Rubens Barbosa, embaixador nos EUA entre 1999 e 2004.

Barbosa ainda nota que a política econômica de reconstrução dos EUA proposta por Biden reserva um capítulo importante sobre desenvolvimento sustentável. "Dependendo do resultado das eleições, pode ser um elemento importante na relação com o Brasil."

Rubens Ricupero - embaixador em Washington entre 1991 e 1993 - afirmou ao Estadão que mesmo sem uma vitória de Biden, a comunidade internacional já se mobiliza para impor taxas diferenciais a países que continuam elevando níveis de poluição ou destruição da natureza. No entanto, Ricupero aponta que, com a adesão do presidente americano, a cobrança sobre o tema seria mais imediata.  

"É inútil pensar que isso será apenas os Estados Unidos. Os EUA são um país com uma influência brutal, e se eles fizerem isso, é difícil imaginar que outros países não vão seguir o caminho. Se Biden for eleito, a questão ambiental vai ganhar visibilidade enorme", afirmou.

Imagem do Brasil no exterior

Além de um alerta sobre possíveis consequências econômicas, Ricupero notou que a menção de Biden ao Brasil reflete uma imagem muito negativa do País no cenário internacional. Para o ex-embaixador, o Brasil se tornou o exemplo de má-gestão ambiental em nível global.

"O contexto da fala de Biden mostra que o Brasil se tornou hoje a principal ameaça ambiental. Não há nenhum outro país no mundo que tenha adquirido essa centralidade. Tanto que é sempre o Brasil que aparece. Outros países podem também ter problemas ambientais, mas o Brasil virou pária número 1, é o grande vilão", disse.

Ainda de acordo com o ex-embaixador, essa imagem negativa teria consequências ainda mais negativas se confirmada a vitória de Biden, isolando o Brasil em termos de Política Externa.

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"Teria consequências sérias [a eleição de Biden]. A Política Externa brasileira só tem uma âncora hoje, o governo Trump. Somos um país isolado atualmente e se perdermos essa âncora, iremos ficar órfãos completamente isolada no panorama mundial".

Sem surpresas

Tanto Ricupero quanto Barbosa relataram receber sem surpresas a menção ao Brasil no discurso de Biden. Segundo os dois ex-embaixadores, a declaração crítica ao País não foi um comentário aleatório, mas sim parte de um conjunto de manifestações reiteradas do Partido Democrata.

Barbosa citou manifestações públicas da candidata à vice-presidente, Kamala Harris, que já havia expressado preocupação com os incêndios florestais na Amazônia. 

Rubens Ricupero fez menção a iniciativas parlamentares, como uma carta endereçada ao governo brasileiro, assinada por deputados democratas, afirmando que vão se opor a medidas que facilitem ou ampliem o comércio com o Brasil.

"Não é um caso isolado do Biden. É o Partido Democrata. Se o partido ganhar também o controle do senado, além da eleição para presidente, vai ter condições de aplicar todas essas medidas em relação à Amazônia, aos povos indígenas e tudo mais", disse Ricupero.

Precedente

Além de ex-embaixador em Washington na década de 1990, Ricupero teve outra experiência na capital americana, como conselheiro chefe do setor político da Embaixada nos anos de 1970. Durante a entrevista, o diplomata recordou de um "precedente" do caso atual.

Ricupero conta que na campanha eleitoral americana de 1976, que elegeu o candidato democrata Jimmy Carter, o Brasil foi criticado por violações aos direitos humanos promovidos pela ditadura militar e por acordos nucleares com a Alemanha. Na época, o presidente era Ernesto Geisel.

"Nós alertamos o governo brasileiro desde Washington, que o Carter, se fosse eleito, levantaria essas questões. O ministro do exterior, nessa época, era o embaixador Azeredo da Silveira, que mantinha uma relação muito boa com Kissinger, secretário do governo Republicano. O governo preferiu não acreditar, mesmo com Carter liderando as pesquisas. E aí aconteceu o que havíamos previsto", relembrou.

Na primeira manifestação ao Congresso, conta Ricupero, Carter repetiu as críticas. Geisel reagiu de forma rigorosa, o que dificultou a relação entre os países.

"Vejo o caso muito parecido. Se Biden for eleito, a questão ambiental vai ganhar uma visibilidade enorme, que é uma plataforma do Partido Democrata".

 

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