Menem - mulherengo, místico e fanfarrão

Definir Carlos Menem é uma tarefa de Hércules: superstar sem rival da ópera bufa em ritmo de tango, que foi a política argentina dos últimos anos, o ex?presidente é mulherengo, místico e fanfarrão.Foi o primeiro peronista neoliberal da História, sem ter pudores pela contradição dos termos, liquidou a hiperinflação que assolava o país e, ao mesmo tempo, afundou a Argentina nos piores índices de pobreza e desemprego da História.O nome de um livro o explica melhor: ?Pizza com champanhe?. Escrito pela ensaísta Silvina Walger, detalha com perspicácia o ?menemato?, como ficou conhecido o período em que Menem governou a Argentina. Com sabor a nouveau riche (novo rico), esse era o emblemático e ilustrativo cardápio que Menem e companhia deglutiam vendo jogos de futebol. Especialmente do River Plate, time do coração presidencial.A Argentina menemista deixou sua costumeira sobriedade britânica de tons cinzentos e azuis-marinhos, para aderir à uma onda mais Versaceana de dourados e demais cores estridentes.?El Turco?, para os argentinos, ?El Jefe?, para seus subordinados, Menem nasceu há quase 71 anos na cidade de La Rioja, na província homônima, encravada no sopé da Cordilheira dos Andes.Filho de imigrantes sírios, Menem tonou-se governador de La Rioja pelo Partido Peronista em 1973. Ele havia conhecido Perón 20 anos antes, quando como um adolescente jogador de basquete (sic) havia ganho um campeonato em Buenos Aires.Perón o condecorou, e, desde aquele dia, Menem quis ser político. Em um casamento arranjado por seus pais, uniu-se à irascível Zulema Yoma. ?Eu só temo a Deus e a Zulema?, disse uma vez.O casamento foi desde o início um festival de brigas, pancadarias e pratos quebrados. Há duas semanas, Menem casou-se com a ex?miss Universo, a chilena Cecilia Bolocco.Durante seu governo em La Rioja, Menem sonhava emular o ?Tigre das Planícies?, Facundo Quiroga, um caudilho do século anterior que havia governado a província de forma sanguinária e brutal.Abundam os depoimentos de que, nas noites de tempestade, Menem colocava um poncho e montado em um pangaré galopava pelos campos, pedindo a incorporação do espírito de Facundo, nome que mais tarde colocou em seu filho: Carlos Facundo.Menem foi um assíduo freqüentador de astrólogas e adivinhos. Desde sua pequena província, sonhou ser presidente e até cortjeou a viúva de Perón, Isabelita, para ser seu vice em uma eleição que ocorreria em 1977, mas que os militares impediram.Com a volta da democracia, foi eleito de novo governador. Em 1988, usando imensas costeletas, um poncho maltrapilho e acompanhado de um pitoresco entourage, venceu a convenção interna do peronismo, derrotando o histórico líder peronista Antonio Cafiero.Menem surgia do nada e surpreendia o peronismo e os argentinos. Meses depois, em 1989, com o slogan ?sigam-me, não os vou decepcionar?, vencia as eleições presidenciais. Menem chegou propondo um ?salariaço? e recuperar as Malvinas ?a ferro e fogo?. No entanto, negociou com a Grã-Bretanha e diminuiu drasticamente o poder aquisitivo dos argentinos.No início do governo flertava com a Líbia, mas rapidamente aliou-se aos EUA, e, em 1991, a Argentina foi o único país que enviou naves à Guerra do Golfo. Menem também propôs a dolarização da economia argentina e conseguiu fazer do país um aliado extra-OTAN dos EUA.Anos atrás, em uma conversa com o Estado, quando foi perguntado sobre o que pensaria o general Perón se visse sua obra, Menem respondeu: ?Querido, el general me estaria aplaudiendo? (Querido, o general estaria me aplaudindo).Menem também aproveitou sua presidência para desfrutar do poder como poucos: envolveu-se com modelos e vedetes do teatro de revista sem esconder seus affaires. Para enfrentar o vasto mulherio recebia de Fidel Castro uma versão primitiva e ilhoa do viagra.Vaidoso, fez implante de cabelo e plástica para ?modernizar? o rosto. Por causa da operação, sua face ficou inchada durante semanas. Menem disse que havia sido picado por uma vespa.Graças ao poder também se deu ao luxo de jogar basquete com a seleção nacional, bater bola com Maradona e Pelé. Também teve tempo para delírios tecnológicos: segundo ele, neste ano, a Argentina teria um foguete para transportar passageiros entre Buenos Aires e Tóquio. Em menos de uma hora, claro.Com freqüência tentou ufanar-se de conhecimento intelectual, mas só dava mancadas: afirmava ter lido as obras de Sócrates (o filósofo grego nunca escreveu livros), e citava a maravilha que havia sido aquele grande ator francês, Molière (na verdade, um dramaturgo). Agora, na prisão, Menem não poderá repetir a frase com a qual encerrava seus discursos: ?vamos triunfar, triunfar, triunfar??.

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