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Menem o fez

Em 1999, a Argentina viveu um momento de virada histórica. Chegava ao fim a era de Carlos Menem. Na sua década de governo, o caudilho fanfarrão do peronismo, nascido da politicamente insignificante Província de La Rioja, sacudira o país como poucos. No auge da sua estadia na Casa Rosada, conseguiu estabilizar a acidentada economia, privatizou a granel, atraiu investimentos externos polpudos e extinguiu a inflação com a ousadia de ancorar o errante peso ao dólar.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2013 | 02h07

Menem abraçou políticas de livre comércio, uma heresia latina que fez da Argentina país emblemático de um tal de Consenso de Washington, antes que o conceito se tornasse epíteto continental. As mesmas políticas levariam a segunda economia sul-americana à implosão, mas não na sua vez. Por essa e outras - sua Ferrari Testarossa e o casamento com a ex-miss universo chilena Cecília Bolocco - Menem esbanjava orgulho do tamanho das suas costeletas de tangueiro. Ainda trombeteou seus feitos em outdoors espalhados pelas ruas de Buenos Aires: "Menem lo hizo" - Menem o fez.

Hoje, 14 anos depois, parece que Menem fez bem mais. Em sentença histórica, um tribunal na semana passada condenou o ex-mandatário e hoje senador, de 82 anos, a sete anos de detenção por contrabando de armas para Croácia e Equador. Os crimes teriam acontecido entre 1991 e 1995, quando existia proibição internacional a fornecer material bélico aos Balcãs, região acometida por sangrentas guerras entre etnias. Tampouco a Argentina poderia ter vendido armas a Equador, pois o país acabara de negociar a paz no contencioso do país andino com seu vizinho, Peru.

Menem, desde o início, negou o crime e alegou que nada soube do contrabando das mais de 6 mil toneladas de pequenas armas às zonas de conflito. O material bélico de fabricação argentina se destinava originalmente a Panamá e Venezuela mas acabou desviado e sua documentação, adulterada, numa operação "guiada pela finalidade de lucro", ressaltou o tribunal. Com Menem, foram condenados outros 12 integrantes da "quadrilha", entre eles civis e militares. Destaque para o então ministro da Defesa, Oscar Camilión, indicado como "coautor" do contrabando.

Se Menem acabará na prisão, é outra história. Há mais de uma década, a Justiça argentina está no seu encalço por um catatau de crimes. Apenas pelo suposto contrabando de armas, Menem em 2001 passou cinco meses em prisão domiciliar, mas foi solto pelo Supremo Tribunal, com maioria menemista. Levado novamente ao tribunal em 2008, foi absolvido em 2011, mas condenado na segunda instância em março deste ano.

Entre ele e o cárcere há ainda o Congresso e o traiçoeiro enredo político argentino. Como senador da republica, eleito por La Rioja, o ex-presidente só sairá da tribuna para a prisão se perder sua imunidade parlamentar, decisão que está na mão de seu colegiado. Quanto à tendência entre os senadores, ninguém arrisca dizer. Menem, embora peronista, é rival tradicional da também peronista presidente Cristina Kirchner. Mas como senador, tem atuado de acordo com agenda da Casa Rosada.

A sentença da Justiça, no entanto, já um marco para democracia argentina, e da América Latina também. Menem é o primeiro ex-presidente democraticamente eleito a ser condenado por um tribunal. Ele se junta ao elenco cada vez maior de figurões, caudilhos e generalíssimos pelo hemisfério obrigados a responder à sociedade pelo que fez. Não apenas em um outdoors de campanha, mas no banco dos réus.

* É colunista do 'Estado', correspondente da 'Newsweek' e edita o site www.brazilinfocus.com

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